domingo, 13 de dezembro de 2015

Esta noite voltei a sonhar....




Esta noite voltei a sonhar que estava na casa onde vivi até aos 22 anos. Mas foi diferente dos outros sonhos que já tive. Desta vez a casa estava vazia. Não havia móveis e portanto  os meus pais já não viviam lá.

Recordo agora que tudo o que dizia era como se eu estivesse a visitá-la e admirava-me com algumas coisas que estavam diferentes. Lembrei-me que quando a minha mãe criava galinhas num espaço ao lado da casa, estava completamente limpo com o chão em cimento e o acesso agora seria mais fácil. Até comentei com quem estava ao pé de mim que se fosse agora o meu pai já não teria que mandar lá um empregado para retirar os ovos e colocá-los numa cestinha que a minha mãe puxava com uma corda...

Foi uma visita muito rápida.

Não sei se é por sonhar muitas vezes com aquela casa mas lembro-me de todos os cantos, de todos os móveis, do tamanho das janelas que eram todas  diferentes. A janela do meu quarto era alta, não tinha acesso a ela. Era uma janela misteriosa e que por vezes sentia um certo medo porque nunca tinha visto o que havia do lado de lá. A minha mãe dizia-me que ela dava para uns telhados. Muitas vezes durante noite punha-me à escuta e parecia que estava gente a andar encima das telhas. Pedi à minha mãe para colocar um cortinado bem opaco para que se estivesse alguém a espreitar não pudesse ver nada para dentro.

É verdade! Tenho a paranóia das janelas, ainda hoje!

*Texto de minha autoria.


Da Mais Alta Janela da Minha Casa

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.
E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.
Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.
Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?
Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.
Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi
sua.
Passo e fico, como o Universo.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLVIII"
Heterónimo de Fernando Pessoa 

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