sexta-feira, 11 de dezembro de 2015


É PARA A CRIANÇA por Rita Paulos



Quando vou às compras à procura de uma peça de roupa para a minha filha invariavelmente escuto: “É para menino ou menina?”. Seguem-se algumas reações espantadas quando digo que é indiferente. Realmente, para casacos, meias, calças, camisolas, t-shirts, pijamas é irrelevante os bonecos ou as cores. Quando ela começar a falar, aí deixaremos ao seu critério a escolha, conforme os seus gostos e preferências – já começámos em pequenas coisas como o babete, em que ela nos aponta o que quer usar naquela refeição. Vestidos e saias já será um desafio no futuro se vier a ter um filho, mas mesmo aí não há na realidade diferença, quando os corpos das crianças são indistintos em termos de ancas ou de ombros nestas idades. Um dia talvez venhamos a ter saias e vestidos à medida de um corpo tipicamente masculino para juniores e seniores, mas se tal não ocorre ainda é só para essas idades.

Os papéis de género são uma construção social que começa logo nesse clássico que é o rosa para as meninas e o azul para os meninos. Quando no início do século vinte começaram estas diferenciações foi inclusive pelo oposto: o vermelho era considerado uma cor agressiva, portanto o rosa era para meninos e o azul para meninas. Este tipo de regras, com aparentes propósitos de género, não são mais que uma forma astuta de forçar, por necessidade de conformidade social, a mudar-se o guarda-roupa se tivermos outra criança, mas de sexo diferente, e aumentar as vendas dos fabricantes de roupa.

A grande questão é que quando se promove a igualdade de género, promove-se não só a justiça, mas também a liberdade, a autonomia, a realização e a expressão pessoais. A desigualdade entre homens e mulheres começa muito cedo e desde logo nesta obsessão de distinção entre rapazes e raparigas, quando na realidade estamos perante pequenos seres humanos em que a distinção entre si é somente relevante para a atração e a reprodução… uns bons anos mais tarde. No dia a dia, enquanto pessoas adultas, não precisamos sequer de saber que o colega ou a pessoa com quem nos cruzamos é homem ou mulher. Essa característica é irrelevante para as nossas interações, a não ser que tenhamos por essa pessoa algum interesse do foro amoroso ou físico.

Quando damos o salto para os brinquedos infelizmente torna-se mais grave. Estes indicam e promovem determinadas competências e papéis, que correspondem a uma ideologia de divisão social de género: as mulheres com o foro do privado, do doméstico e do delicado e os homens com o foro do público, da força e da liderança. Não é possível conferir uma verdadeira igualdade de oportunidades e de realização pessoal se dizemos às crianças de formas subtis ou mais explícitas como devem comportar-se ou o que podem fazer com base no corpo com que nasceram. É um anacronismo de ideias que digamos “sim, queremos mais mulheres engenheiras, polícias, políticas ou condutoras de autocarros”, mas desde o início é-lhes dado a subentender, de várias formas, que à partida não são tão aptas ou não lhes oferecemos brinquedos ou brincadeiras que estimulem essas aptidões ou dons que existam à partida. Estudos sobre diferenças entre os sexos confirmaram que rapazes e raparigas seguem tendencialmente determinados percursos académicos, porque assim são estimulados em todos aqueles que são os ambientes e instrumentos de aprendizagem, incluindo os legos ou as bonecas, ocorrendo então uma “profecia autorrealizada”. Restam as crianças mais resistentes que não obstante as regras sociais e algum risco de exclusão afirmam-se, ficando-se pelo caminho muitas outras crianças para agradarem os pares e os adultos.

Nesta época do Natal verificamos estas condicionantes em toda a sua força. Algumas marcas de brinquedos já as contrariam seja pelo tipo de brinquedos que oferecem ou pela forma como os embalam, publicitam ou catalogam, recusando distinções de género, mas são uma minoria ainda. Todavia se queremos as nossas crianças verdadeiramente realizadas e felizes agora e durante o resto das suas vidas é importante deitarmos no lixo estas imposições e deixarmo-las serem quem são, começando por dizer: não há uma forma única de ser rapaz, não há uma forma única de ser rapariga.