quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Como encontrar a felicidade...




Para Tenzin Gyatso, conhecido como Dalai Lama, a felicidade é o objetivo da vida. Através de conversas com um psicólogo americano, ele traz reflexões sobre questões que cercam o mundo ocidental tão comuns no nosso dia a dia, como a ansiedade, a perda e as frustrações. Através da leitura, Dalai Lama nos mostra que, para encontrar a felicidade, é preciso olhar para os lados.



Em uma das conversas do Dalai Lama com o psicólogo Howard C. Cutler no livro A Arte da Felicidade , o líder espiritual diz que a felicidade pode ser alcançada desde que haja um treinamento da mente, de modo a identificar os fatores que levam à ela ou ao sofrimento e, sobretudo, ter um sentimento de contentamento. Porém, nossa cultura ocidental nos ensinou que há um pacote para sermos felizes, com família, casa com cachorro, vida financeira abastada e uma carreira de sucesso. Isso, a princípio, nos dá uma ideia de estabilidade, porém, de maneira contraditória, essa felicidade está ligada a ter todas essas características de forma exagerada. Para aceitar alguém como nossos parceiros sentimentais, ele ou ela precisam atender à alguns requisitos, como um corpo em forma, com cabelos e pele impecáveis, a moradia deve ter pelo menos 3 quartos e estar localizado num bairro nobre, o cachorro precisa ser um golden retriever e o emprego deve estar sempre em ascensão e com excelente salário, do contrário significa que você não é um visionário. Atender à essas exigências de ter sempre o melhor cai no problema de que essa felicidade dificilmente será alcançada, pois nunca estaremos satisfeitos com o que temos naquele momento.

Durante a leitura, é possível perceber o grande enfoque que o líder espiritual dá para a gratidão e compaixão, realçando que todos os aspectos da vida, a origem do sofrimento e a busca pela felicidade está nesses dois sentimentos. A princípio, parece piegas falar sobre ser grato e nos compadecer, mas esclarece muito a respeito de doenças psicológicas comuns atualmente, como a ansiedade e a depressão, ligando-as ao desejo. Desejamos ter cada vez mais coisas, ser reconhecidos como uma pessoa de valor, e usamos a vida do outro como parâmetro, ou seja, somos tendenciosos na escolha do que nos faz feliz ou não. Explica o fato de homens e mulheres, aparentemente comuns de repente serem sucesso nas redes sociais, tornando-se do dia para a noite uma pessoa de prestígio e viram exemplos para muitos que desejam ser como eles.


Ao contrário do que é passado através dos meios de comunicação, Dalai Lama nos diz que “...o fato de nos sentirmos felizes ou infelizes a qualquer dado momento costuma ter muito pouca a ver com nossas condições absolutas, mas é, sim, uma função de como percebemos nossa situação, da satisfação que sentimos com o que temos.”. A ganância é a manifestação exagerada do desejo, baseada na saturação de expectativas, conduzindo inevitavelmente a uma sensação de frustração, decepção, problemas pessoais e financeiros, fazendo do indivíduo um poço sem fundo. O antídoto, para ele, é o contentamento, consistindo basicamente em apreciar o que se tem e mais importante, parar com a comparação de si próprio com os outros.

Outro fator importante é enxergar que todos os seres humanos são iguais, portanto, passíveis de sofrimento. Se conscientizar da dor do outro gera um sentimento de ligação e compromisso, pois há uma identificação com aquela angústia, dando a energia necessária para sair da zona de conforto, estender a mão e ajudar. Adquirir esse conhecimento abre os olhos para o fato de que não estamos sozinhos no mundo, descentralizando a atenção do próprio ego e adotando uma postura de perspectiva, ou seja, observar os problemas de ângulos diferentes, tendo em mente que muitos passam pela mesma situação e que não há um castigo divino sendo imposto em sua vida. O líder espiritual explica que há possibilidade de libertação do sofrimento, desde que ele seja aceito como um fato natural da existência humana, aliado à firmeza de encarar os obstáculos de frente.


Batendo de frente com o nosso dia a dia corrido, no qual cada hora é ministrada metodicamente para dar conta de tantas obrigações, ele afirma que, diante de momentos em que a vida encontra-se muito complicada e há uma forte sensação de estagnação e confusão, é preciso parar e refletir sobre o objetivo final de toda essa jornada. Esses momentos de meditação sobre o propósito da vida permite a possibilidade de repensar o que realmente traz felicidade, reorganizar as prioridades e seguir o caminho que trará equilíbrio. Apesar de parecer loucura sugerir dar uma pausa na agenda, essa contemplação traz a tona o questionamento sobre a utilização do tempo, levando enfim à reflexão sobre o que realmente tem valor na nossa vida.

A verdadeira arte da felicidade está em estimular a ideia da compaixão, batendo de frente com a sociedade ocidental focada sempre no indivíduo. A compaixão, segundo Dalai Lama, é a percepção de que todos os seres têm o mesmo direito à felicidade, portanto, análogos em sua essência. Entender que todos enfrentam uma “batalha interna” promove a descentralização do “eu”, desenvolvendo a empatia e a capacidade de compreender as pessoas antes de julgá-las antecipadamente, atitude que reduz o medo e permite uma franqueza com os outros, criando uma atmosfera mais positiva e amigável. Adotar essa postura nos torna mais resistentes aos acontecimentos externos, pois o estado mental permanece o mesmo, independente de como somos abordados.

Embora alcançar a felicidade não seja uma tarefa fácil, é possível vivenciá-la através do treinamento da mente. Praticar a disciplina interior pode transformar a atitude e o modo de encarar e abordar a vida, superando gradativamente as emoções e comportamentos negativos e reforçando os hábitos positivos, não existe uma fórmula que satisfaça a todos, mas o método é o mesmo: aprendizado, determinação, esforço e tempo. A habilidade de transformação da mente consiste em moldá-la e adaptá-la aos acontecimentos externos, lembrando sempre de que a mudança não ocorrerá da noite para o dia. Através de seus ensinamentos, Dalai Lama acaba surpreendendo aqueles que procuraram o livro para tentar descobrir o caminho da própria felicidade. Quem lê o livro ganha a lição de que ela só é encontrada quando a distribuímos para os outros.
Ludmila Moreno


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