sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Carta a uma amiga com cancro

  



Dói.

Sei que dói.

Muito.

Demais.

Mais do que o compreensível.

Sei que só o sono induzido aquieta os demónios. Só com os químicos já familiares consegues descansar sem sobressaltos de veias que não aguentam mais invasões. Entendo a vontade de ficares de olhos fechados, líquidos canalizados, até deixar de doer. Até deixares de sentir.

Sei que não há escala que quantifique a tua dor, mas vou dar-te a mão em cada milímetro do processo.

Acompanhar-te-ei mesmo quando não me quiseres, quando decidires desistir e me enxotares como se não precisasses de qualquer companhia para além do bicho que te invadiu e nos deixou sem força para reagir.

Vou acompanhar cada sessão: lado-a-lado naquela sala de dor e esperança, lemos baixinho os melhores livros, partilhamos headphones, folheamos revistas. Quando não te apetecer interagir, quando o tratamento exigir mais do que podes suportar, dou-te a mão. Ficamos com as cabeças encostadas. Ou enrosco-me aos teus pés para que saibas que nunca estarás sozinha.

Vou pentear a tua peruca com afinco e pesquisar os melhores produtos de maquilhagem: base hipoalergénica, lápis de sobrancelhas, pestanas falsas.

Vou segurar-te a cabeça e o corpo a cada convulsão e cuidá-los como da porcelana que se guarda para o natal.

Quando não tiveres força, luto pelas duas. Não vou falhar. Quero que saibas isso.

Nunca vou desistir.

Ainda temos tanto para fazer…

Podes sempre gritar-me o quão injusta é a vida. Despeja a raiva da frustração, mas não desistas, nunca pares de avançar um milímetro.

Apoia-te em mim. Quando não conseguires levo-te ao colo.

Preciso de ti.

E tu precisas de ti quando tudo tiver passado e a única lembrança for a alteração física e os lenços exóticos que aprendeste a dobrar de forma exímia.

Não desistas, nunca desistas.

Não deixo.

Vieram buscar-nos. Avançamos mais um milímetro?

Inês Pita