segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

CARTA À MÃE NATAL


 Capazes.pt

Querida Mãe Natal
 
Decidi escrever-te porque acredito muito mais em ti do que no Pai Natal. Se queres saber, nele nunca acreditei. Até quando era miúda, aquela treta de que, caso me portasse bem, ele me daria um presente – descendo pela chaminé – sempre me cheirou a esturro. Literalmente. Logo à partida, porque nem todas as crianças moravam em casas com chaminé. Muitas delas, nem casa tinham. A juntar a isso, achava demasiado estranho que tanta gordura lhe desse agilidade trepadeira suficiente para conseguir chegar aos telhados com a facilidade e mestria do Zé do Telhado. Ainda mais num sobe-e-desce constante próprio do corrupio que lhe era devido na noite de Natal. 
Como se tudo isto não bastasse, questionava-me como seria possível vir a criatura de tão longe e chegar a todas as casas rigorosamente no mesmo dia e à mesma hora. Desgraçadas das renas.
 Para te dizer a verdade, Mãe Natal, questionava-me que estarias tu a fazer para não o desmascarares. Questionava-me por que raio nunca nos foste apresentada nem sequer mencionada. Seria por estares demasiado ocupada com os preparativos e compras de Natal? Seria por não ser bem visto uma senhora andar sozinha na rua? Seria porque o Pai Natal não te deixava sair de casa? Por querer os louros – e louras 
– só para ele? Por estas razões todas juntas e, quiçá, até mais outras? 
 

Sabes, Mãe Natal, não sei como serás. Mas imagino-te parecida com a minha. Embora a minha, desculpar-me-ás, ainda mais bonita, mais querida e mais amiga. Tal como, aliás, sentirá a maioria dos filhos em relação à sua mãe. Apesar disso, Mãe Natal, não retiro um milímetro à admiração que sinto por ti. E sabes porquê? Pelo tanto que representas: o feminino. Representas o outro lado da moeda. O lado esquecido pela ‘Coca-Cola’ – a tal que, segundo reza a lenda, deu à luz o Pai Natal. Tivesse a Pepsi sido mais ousada, que teria reclamado a maternidade sobre ti. Quem sabe, até, serás fruto de procriação medicamente assistida a que uma mulher solteira portuguesa decidiu recorrer? Não fosse a lei impedi-lo neste nosso país, que seriamos nós, e não os espanhóis, a gritar ao mundo o orgulho na tua nacionalidade – vê lá o que ainda hoje acontece com o Cristóvão Colombo. Mas também, quem sabe, nunca quiseste sequer casar com nenhum homem? Muito menos com o Pai Natal – essa gorda e anafada criatura. Quem sabe, terás sido tu a mandar o Pai Natal às couves – às renas, queria eu dizer. 
Sabes, Mãe Natal, tenho pena que esta carta, à semelhança de milhões de tantas outras enviadas ao Pai Natal, não terá qualquer retorno. Ainda assim, quero que saibas que eu e todas as Capazes estamos aqui a torcer por ti, a pensar em ti, a fazer tudo para que te sintas feliz, a fazer tudo para que, também tu, um dia sejas vista pelas crianças como fazendo parte do júri que avalia o seu comportamento ao final de um ano rebeldíssimo de brincadeiras e necessárias tropelias. Que, também tu, Mãe Natal, fazes parte do lado bom da festa. Não só ele: o gordo. 

Ao Pai Natal cabe-lhe trazer o presente. A ti pedimos-te o futuro. O futuro que todas as crianças e mulheres merecem. Não que os homens não o mereçam: claro que sim. Mas estes já têm um bom (bonzinho..) representante e eterno julgador justiceiro das crianças  – isto, claro, para quem acredite no Pai Natal. 

Sabes, Mãe Natal, se me chegares a ler, manda o Pai Natal à fava e fica tu com o bolo-rei. Ou melhor: com o bolo-rainha.