Sou como a mesa de café que calou os projectos mais loucos que ouviu e todos os outros.
Sou neto do meu Avô. Sou a mão firme. A palavra de honra.
Visto a roupa de sempre. Só a troco quando se gasta. Sou fiel nesta vida desencontrada.
Cresci a brincar na quinta em frente à minha velha casa. Quando Lisboa tinha quintas, hortas e poucos carros.
Já sabia ler quando fui para a 1ª classe. A escola do mesmo lado da rua 6 ou 7 prédios abaixo.
O professor Torres. O seu ar bondoso e carinhoso. A tia nossa 2ª mãe durante as horas de aulas. Um colo grande onde cabíamos todos.
O recreio calcetado. Os joelhos esfolados.
Dentro da aula. As carteiras de madeira. Pequenas. Os tinteiros, as canetas e os aparos. Os cadernos de duas linhas. Os lápis e os afias lápis.
Na parede um crucifixo e a fotografia do ditador. O homem de que me falavam tão mal em casa. Não o conseguia encarar.
Havia também um mapa. Um mapa estranho em que Portugal tinha quase o tamanho da toda a Europa Ocidental.
Ensinavam-nos que éramos um país onde o sol nunca se punha e nós crescíamos.
Saíamos da escola e éramos de novo a nossa rua. O berlinde e o pião. Os carrinhos de rodas de esferas e a mãe a chamar à janela.
As voltas à placa e ao quarteirão. A proibição estúpida de jogar à bola na rua.
As árvores de fruto e a chinchada. A fúria do dono da fruta. Fugir e comer o fruto proibido. Chegar a casa e ficar de castigo.
A catequese e um deus castigador. Acreditar pelo medo. O fogo do inferno. Ninguém gosta de arder em fogo lento.
A missa em latim. O nosso latim. O santo sacrifício da saída da missa.
Ajudar à missa. Acólito de alva e cordão. O turíbulo e a campainha. As galhetas, a caldeirinha da água benta. A bandeja da comunhão.
A minha Avó muito orgulhosa. O meu Avô velho republicano e anticlerical preferia não saber de tais eventos.
Por vezes olhava para mim de esguelha e ar reprovador.
– Só me faltava um padreca em casa.
Cheguei a ouvi-lo dizer.
Todos os sacramentos. Todas as bendições e no entanto tudo não chegou ou foi demais.
Crescíamos num instante nessa altura. A nós tudo nos parecia devagar.
Montavam e desmontavam o presépio. Púnhamos o sapatinho na chaminé e esperávamos pela manhã e tinha passado mais um ano.
Batiam-se latas, tachos e panelas e deitava-se o ano-velho pela janela no Ano-Novo.
Num instante acabei o Curso Comercial na velha Veiga Beirão. Fiz um exame a 7 de Outubro e a 8 fui trabalhar.
Tinha 15 anos e já me julgava um homem. Iria continuar a estudar à noite.
– Foste trabalhar eras uma criança.
Disse-me a minha Avó, tinha noventa e tal anos, enquanto me fazia um festa na cara.
Beijei-a.
Jorge C Ferreira