quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

AMOR E BIPOLARIDADE: COMO SE RELACIONAR COM O TRANSTORNO




Intensa alegria intercalada com intensa tristeza. Caso se considere a definição de Aristóteles, poderia até se estar falando da paixão, mas o tema aqui é mais sério. Trata-se da bipolaridade, transtorno que, de acordo com a Associação Brasileira de Transtorno Bipolar, atinge 4,2 milhões de brasileiros e está entre as principais causas de suicídio. Mas se o próprio filósofo grego já alertava para as alterações dos sentidos promovidas pela paixão em quem não sofre de nenhum transtorno mental, como é para um bipolar vivenciar um relacionamento amoroso? "As crises podem trazer um desgaste para a relação que, com o tempo, pode levar o casal a se afastar", alerta a psiquiatra, professora e pesquisadora do transtorno na Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, Marcia Kauer Sant’Anna. Nesta entrevista, Marcia* fala sobre como os bipolares, e quem se relaciona com eles, podem ter relações afetivas mais saudáveis.

Em que consiste a bipolaridade?

M: O Transtorno de Humor Bipolar é um transtorno psiquiátrico que se caracteriza por grandes oscilações do humor. As variações costumam ocorrer entre dois polos: a mania (período de humor persistentemente elevado, expansivo ou irritável), e a depressão (período de humor predominantemente deprimido). Dados estatísticos indicam que, aproximadamente, uma em cada 100 pessoas no mundo pode apresentar a doença. Como várias outras doenças crônicas, o Transtorno Bipolar tem tratamento, e é possível ser controlado.

Não há razão para acreditarmos que a bipolaridade por si só altere a essência do sentimento ou a capacidade de formar vínculos"

No dia-a-dia grande parte das pessoas mudam de humor devido às situações que vivenciam, tristezas, alegrias, irritações etc. Como diferenciar pessoas intensas no que vivenciam de bipolaridade?

M: Este diagnóstico é feito por psiquiatras através de uma avaliação clínica. Basicamente consiste na avaliação do comportamento do indivíduo ao longo da vida, analisando as variações do humor e o ambiente. Diferente do que muita gente pensa, o transtorno bipolar não se caracteriza por mudanças repentinas de humor ao longo do dia, mas sim pela vivência de episódios de humor de duração de cerca de alguns dias e até semanas. A análise do psiquiatra é capaz de discernir entre a variação normal daquela patológica, que põe em risco o paciente ou seus familiares, levando em conta a gravidade, a duração e repercussões dos sintomas no contexto de cada paciente.

 Recorte do cartaz de "O lado bom da vida" (2012)


 Entendendo o amor em duas dimensões, como um sentimento pelo outro e também como um relacionamento pelo outro, o sentimento de amor de alguém bipolar pelo outro é diferente em relação ao sentimento de alguém não bipolar?

M: O amor é um sentimento bastante complexo que varia muito de pessoa para pessoa. Do ponto de vista mais técnico, podemos entender amor como capacidade formar vínculos afetivos. Não há razão para acreditarmos que a doença por si só altere a essência do sentimento ou a capacidade de formar vínculos. O que pode acontecer é uma dificuldade nos relacionamentos a dois e com familiares e amigos durante os episódios, seja pela apatia na depressão, seja pela euforia e irritabilidade, características da mania. Com o controle dos episódios é possível estabelecer relacionamentos saudáveis e levar uma vida normal.

É provável que exista uma dificuldade maior nos relacionamentos durante os episódios, devido à manifestação dos sintomas"

Na dimensão do relacionamento, é mais difícil para um bipolar manter uma relação amorosa se comparado a alguém não bipolar?

M: É provável que exista uma dificuldade maior nos relacionamentos durante os episódios, devido à manifestação dos sintomas. Os episódios podem trazer um desgaste para a relação que, com o tempo, pode levar o casal a se afastar. Isso não significa que seja impossível a manutenção de uma relação amorosa. Simplesmente destaca a importância de se controlar a doença com tratamento adequado, de forma a evitar os episódios agudos de humor e visando estabilizar o paciente.


 Recorte do cartaz de "O lado bom da vida" (2012) 

No relacionamento amoroso, o parceiro de alguém bipolar precisa de algum tipo de atenção especial ou conhecimentos para ter e propiciar a quem ama uma vida mais saudável?

M: Quanto mais conhecimento não só o parceiro, como também o próprio paciente e toda sua família, tiverem sobre a doença, melhor. Entender a doença, suas manifestações, e os sinais de que um episódio está se desencadeando é fundamental. Dessa forma o parceiro ajuda no cuidado do paciente e se familiariza com a doença, assumindo um papel de apoio e compreensão. Pode oferecer ainda uma ajuda fundamental: identificar precocemente sinais de uma crise, evitando que ela ocorra com a busca do tratamento na fase mais inicial.

Com acesso às informações corretas sobre a bipolaridade, o parceiro, a família e os amigos podem auxiliar no equilíbrio emocional do paciente"

Qual o papel da família e dos amigos de um bipolar em relação a ajudar na saúde emocional de um bipolar?

M: O grupo familiar e social de uma pessoa tem uma importância fundamental para o uma vida saudável, incluindo a saúde psíquica. Pacientes compreendidos e apoiados em uma rede social forte têm maiores condições de sair de episódios e evitar sua recorrência se comparados a pacientes com suporte pobre. Da mesma forma que o parceiro, a família e os amigos devem ter acesso às informações corretas sobre a doença, auxiliando no equilíbrio emocional do bipolar e evitando estigma.

 Recorte do cartaz de "O lado bom da vida"

Uma relação afetiva e sexual estável pode trazer benefícios à saúde do bipolar?

M: Pode. É importante para o bem-estar de qualquer pessoa relações afetivas estáveis, através de uma relação saudável.

A paixão é marcada por contrastes de amor que parecem beirar o patológico, mas para diferenciar as variações normais de um transtorno é preciso procurar ajuda quando a duração for grande"

Aristóteles dizia que a paixão altera nosso julgamento e nos traz grande alegria e grande tristeza. O amor deixa a todos nós um pouco "bipolares"?

M: Não apenas o amor, mas uma série de eventos na nossa vida pode desencadear sintomas característicos tanto da mania quanto da depressão. A paixão é claramente marcada por esses contrastes no humor que parece beirar o patológico. Para diferenciar essas variações normais e saudáveis daquelas que configuram doença e trazem prejuízo é que existem os critérios para os transtornos mentais, devendo ser procurada a ajuda psiquiátrica sempre que a duração ou gravidade dos sintomas forem exageradas.


eusoqueriaumcafe