quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A última crônica de Carlos Drummond de Andrade



Publicada em 1984, a última crônica de Carlos Drummond de Andrade é uma despedida aos leitores que, durante quinze anos, foram agraciados com os textos do poeta.

Publicado por: Luana Castro Alves Perez em A arte da palavra: a Literatura



A última crônica de Drummond para o Jornal do Brasil foi publicada no dia 29 de setembro de 1984. A parceria durou quinze anos *

Durante quinze anos, três vezes por semana, os leitores do Jornal do Brasil, um dos periódicos mais importantes do século XX, eram presenteados com as crônicas de Carlos Drummond de Andrade. Nas páginas do JB e, posteriormente, nas páginas do Caderno B, seu suplemento cultural, foram publicados aproximadamente 2.300 textos do poeta, textos que posteriormente foram compilados no livro de crônicas Boca de luar.

As crônicas de Drummond foram publicadas entre os anos de 1969 e 1984. Os temas eram diversos: a vida cotidiana, o futebol, a música, a memória individual e a memória coletiva, entre tantos outros, sempre abordados com o lirismo que apenas um grande poeta pode imprimir em um gênero tão corriqueiro e despretensioso como é a crônica. Ainda que a temática possa estar ultrapassada, até porque o tempo é a matéria-prima desse gênero, as crônicas de Drummond são verdadeiras preciosidades que jamais perderão seu imenso valor literário.

“Eu fui mais um cronista, um amigo e companheiro da hora do café da manhã que um escritor. Um homem que registrava o cotidiano e o comentava com o possível bom-humor para não aumentar a tristeza e a inquietação das pessoas. Considerava o jornal um repositório de notícias tremendas. Então, o meu cantinho do jornal era aquele cantinho em que procurava distrair as pessoas dos males, dos aborrecimentos, das angústias da vida cotidiana.”

(Carlos Drummond de Andrade)



Aos leitores, gratidão, essa palavra-tudo. Com essas palavras, Drummond encerrou sua parceria com o Jornal do Brasil **

Aos 81 anos, depois de quinze anos colaborando com o Jornal do Brasil, Drummond decidiu “pendurar as chuteiras”, expressão que ele mesmo usou ao despedir-se dos amigos leitores, seus companheiros da hora do café da manhã. Ao derradeiro texto, deu o nome sugestivo de Ciao(saudação informal italiana abrasileirada como tchau), publicado no dia 29 de setembro de 1984. A partir daquela data, Drummond cedeu espaço para os mais jovens, conforme suas próprias palavras, abandonando o posto de “o mais velho cronista em atividade do Brasil”. Quase três anos após a publicação de Ciao o poeta faleceu em uma segunda-feira, dia 17 de agosto de 1987, poucos dias após perder a única filha, Maria Julieta.

O Mundo Educação mostra agora para você a última crônica de Carlos Drummond de Andrade: Ciao. Esperamos que essa seja a primeira de muitas que você terá o prazer de conhecer. Boa leitura!


Três diferentes edições do livro Boca de luar, obra póstuma que reúne as melhores crônicas publicadas pelo Jornal do Brasil ***

Ciao
Há 64 anos, um adolescente fascinado por papel impresso notou que, no andar térreo do prédio onde morava, um placar exibia a cada manhã a primeira página de um jornal modestíssimo, porém jornal. Não teve dúvida. Entrou e ofereceu os seus serviços ao diretor, que era, sozinho, todo o pessoal da redação. O homem olhou-o, cético, e perguntou:

- Sobre o que pretende escrever?

- Sobre tudo. Cinema, literatura, vida urbana, moral, coisas deste mundo e de qualquer outro possível.

O diretor, ao perceber que alguém, mesmo inepto, se dispunha a fazer o jornal para ele, praticamente de graça, topou. Nasceu aí, na velha Belo Horizonte dos anos 20, um cronista que ainda hoje, com a graça de Deus e com ou sem assunto, comete as suas croniquices.

Comete é tempo errado de verbo. Melhor dizer: cometia. Pois chegou o momento deste contumaz rabiscador de letras pendurar as chuteiras (que na prática jamais calçou) e dizer aos leitores um ciao-adeus sem melancolia, mas oportuno.

Creio que ele pode gabar-se de possuir um título não disputado por ninguém: o de mais velho cronista brasileiro. Assistiu, sentado e escrevendo, ao desfile de 11 presidentes da República, mais ou menos eleitos (sendo um bisado), sem contar as altas patentes militares que se atribuíram esse título. Viu de longe, mas de coração arfante, a Segunda Guerra Mundial, acompanhou a industrialização do Brasil, os movimentos populares frustrados mas renascidos, os ismos de vanguarda que ambicionavam reformular para sempre o conceito universal de poesia; anotou as catástrofes, a Lua visitada, as mulheres lutando a braço para serem entendidas pelos homens; as pequenas alegrias do cotidiano, abertas a qualquer um, que são certamente as melhores.

Viu tudo isso, ora sorrindo ora zangado, pois a zanga tem seu lugar mesmo nos temperamentos mais aguados. Procurou extrair de cada coisa não uma lição, mas um traço que comovesse ou distraísse o leitor, fazendo-o sorrir, se não do acontecimento, pelo menos do próprio cronista, que às vezes se torna cronista do seu umbigo, ironizando-se a si mesmo antes que outros o façam.

Crônica tem essa vantagem: não obriga ao paletó-e-gravata do editorialista, forçado a definir uma posição correta diante dos grandes problemas; não exige de quem a faz o nervosismo saltitante do repórter, responsável pela apuração do fato na hora mesma em que ele acontece; dispensa a especialização suada em economia, finanças, política nacional e internacional, esporte, religião e o mais que imaginar se possa. Sei bem que existem o cronista político, o esportivo, o religioso, o econômico etc., mas a crônica de que estou falando é aquela que não precisa entender de nada ao falar de tudo. Não se exige do cronista geral a informação ou comentários precisos que cobramos dos outros. O que lhe pedimos é uma espécie de loucura mansa, que desenvolva determinado ponto de vista não ortodoxo e não trivial e desperte em nós a inclinação para o jogo da fantasia, o absurdo e a vadiação de espírito. Claro que ele deve ser um cara confiável, ainda na divagação. Não se compreende, ou não compreendo, cronista faccioso, que sirva a interesse pessoal ou de grupo, porque a crônica é território livre da imaginação, empenhada em circular entre os acontecimentos do dia, sem procurar influir neles. Fazer mais do que isso seria pretensão descabida de sua parte. Ele sabe que seu prazo de atuação é limitado: minutos no café da manhã ou à espera do coletivo.

Com esse espírito, a tarefa do croniqueiro estreado no tempo de Epitácio Pessoa (algum de vocês já teria nascido nos anos a.C. de 1920? duvido) não foi penosa e valeu-lhe algumas doçuras. Uma delas ter aliviado a amargura de mãe que perdera a filha jovem. Em compensação alguns anônimos e inominados o desancaram, como a lhe dizerem: “É para você não ficar metido a besta, julgando que seus comentários passarão à História”. Ele sabe que não passarão. E daí? Melhor aceitar as louvações e esquecer as descalçadeiras.

Foi o que esse outrora-rapaz fez ou tentou fazer em mais de seis décadas. Em certo período, consagrou mais tempo a tarefas burocráticas do que ao jornalismo, porém jamais deixou de ser homem de jornal, leitor implacável de jornais, interessado em seguir não apenas o desdobrar das notícias como as diferentes maneiras de apresentá-las ao público. Uma página bem diagramada causava-lhe prazer estético; a charge, a foto, a reportagem, a legenda bem feitas, o estilo particular de cada diário ou revista eram para ele (e são) motivos de alegria profissional. A duas grandes casas do jornalismo brasileiro ele se orgulha de ter pertencido ? o extinto Correio da Manhã, de valente memória, e o Jornal do Brasil, por seu conceito humanístico da função da Imprensa no mundo. Quinze anos de atividade no primeiro e mais 15, atuais, no segundo, alimentarão as melhores lembranças do velho jornalista.

E é por admitir esta noção de velho, consciente e alegremente, que ele hoje se despede da crônica, sem se despedir do gosto de manejar a palavra escrita, sob outras modalidades, pois escrever é sua doença vital, já agora sem periodicidade e com suave preguiça. Ceda espaço aos mais novos e vá cultivar o seu jardim, pelo menos imaginário.

Aos leitores, gratidão, essa palavra-tudo.

Carlos Drummond de Andrade

(Jornal do Brasil, 29/09/1984)