segunda-feira, 7 de dezembro de 2015


A menina que um dia fui





As cortinas se fecham lentamente, o som da voz da minha mãe embala meu sono dentro da rede que balança. O mundo é feito de algodão doce e chocolate nas calçadas. Na boca aquele gosto só de futuro pela frente.

O meu mundo está completo, bolas, bonecas e muitos brinquedos ao redor. No tempo dos pardais no quintal, vagalumes na sala e guinés que passeiam nas ruas do meu bairro. Os terrenos baldios cheios de flores do campo me fazem crer que o lobo mau mora perto de mim.
No jardim do meu avô planto uma acácia que faz sombra e lá em baixo desenho minha amarelinha que me leva ao céu.
Tempo de escola, cadernos encapados com plástico colorido e letra da minha mãe desenhando o meu nome. Lápis novos e borrachas enchem o estojo de madeira. Fins de semana na pracinha andando de bicicleta com meus pais me observando de longe, deixando que derrapagens e quedas me ensinem a levantar sozinha.
O cheiro das fatias douradas na casa de vovó, a tapioca enrolada com ovos mexidos, a lata de leite condensado devorada sem culpa, o pão quente com manteiga na volta para casa ao sair do colégio, sabores que parecia ter esquecido.
Menina de fita no cabelo, cantigas de rodas, pique esconde e quadrilhas juninas. Sempre com medo de se arriscar. Mas que sempre levanta do chão com os joelhos ralados tentando disfarçar a dor.
Tempo de sonhar com as mocinhas das novelas do rádio da minha avó, porque as da tv eram proibidas para mim. Familia reunida, todos juntos, sem saber que um dia alguns deles podem desaparecer e não voltar mais.
Aprendo os primeiros sons no violão do meu pai, os discos de contos de fadas não saem da vitrolinha vermelha. Os primeiros passos de dança são dados sobre os pés dele, valsamos rodopiando pelo terraço inteiro.
Num dia de sol ele veio se despedir de mim, ia visitar o irmão e não voltou mais. Passei a procura-lo em todos os rostos estranhos que passavam por mim, acreditava que um dia iria vê-lo de novo, mesmo sabendo que papai do céu tinha levado para perto dele. É estranho sentir saudade sem saber direito o que é perder. O estranho gosto de crescer. Ao senti-lo novamente, desperto.
O quarto é o mesmo, as paredes mudaram de cor. A música que toca é outra.
A gente constroi os castelos para que o mar venha , os derrube, misture tudo e depois possamos faze-los novamente, do mesmo modo, ou diferente.
Finais felizes só funcionam nos filmes e novelas por que na vida real a vida continua e encantamentos acabam, o rumo a gente sempre tem nas mãos. Mas a menina sempre vai sonhar, de olhos abertos porque dentro de mim ainda existe a pequena bailarina, que olha para a vida que passou, e a que virá, sempre na ponta dos pés para ficar mais alta e ver melhor...


A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou.
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Fernando Pessoa




Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.