quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A Madeira com um brilhozinho nos olhos






Natal e Ano Novo: a Madeira com um brilhozinho nos olhos
 Por Mara Gonçalves
15.12.2015

Passeámos pelo Funchal mais natalício, já pronto para viver as festas em grande, como é tradição na ilha. À espera do Ano Novo, entre luzes, mercadinho, presépio, aldeia etnográfica ou a novel e interactiva árvore de Natal do Pestana Casino Park.

Eram 18h quando grande parte das luzes de Natal se acenderam, iluminando o anfiteatro natural do Funchal. As casinhas encavalitadas encosta acima já lhe dão habitualmente um ar de presépio e agora compõe-se num postal perfeito da quadra: rios serpenteantes de lâmpadas brancas traçam as principais ruas do concelho, algumas capelas contornam-se de luz, descobrimos árvores de Natal, uma grande parede luminosa e, lá ao fundo, cintila um gigante 2015.

A noite de feriado, dia de Imaculada Conceição, deu mais uma vez início ao programa das Festas de Natal e Fim do Ano na Madeira, com o acender da maioria das iluminações, pondo fim à expectativa de meses daquele que é, para os madeirenses, um dos ex-líbris da quadra na ilha. “Já fui lá em baixo e está bonito. No ano passado estava uma porcaria, mas este ano está bem”, ouvimos comentar ao nosso lado.

Em 2014, a responsabilidade pela iluminação foi, cerca de 20 anos depois, atribuída a uma empresa diferente e o projecto minimalista assinado por Paulo David gerou muita polémica e descontentamento entre a população. A Luxstar é novamente a empresa adjudicada, mas desta vez há mais luzes, mais cor e motivos natalícios, confirmaremos mais tarde entre os muitos madeirenses e turistas que acorreram à baixa do Funchal para ver a iluminação.


Para já, estamos junto a outra novidade natalícia da cidade: pela primeira vez, o maior grupo hoteleiro madeirense une-se às celebrações da quadra, com uma árvore interactiva e programação diária junto ao Pestana Casino Park. A inauguração foi marcada pela descida em slide do Pai Natal e pela iluminação da Xmas Tree, com 25 metros de altura e decorações inspiradas no bordado da Madeira. “Quisemos criar um espaço lúdico e de entretenimento que pudesse ser fruído de forma gratuita pelos locais e pelos estrangeiros e turistas que por esta altura vêm à Madeira”, conta Paulo Prada, administrador do Pestana Hotel Group.

“É uma árvore interactiva, que permite que as pessoas lá deixem os seus desejos; depois temos um parceiro que fornece wi-fi gratuitamente e permite que as pessoas tirem as suas fotografias, as enviem e partilhem. E temos as casinhas, com uma componente importante de solidariedade”, enumera. Em redor da árvore, cinco barraquinhas de madeira de instituições e casas do povo da região vendem petiscos e bebidas tradicionais, entre sandes de carne de vinha d'alhos (o prato mais característico da mesa natalícia na Madeira), broas de castanha ou de noz e mel, poncha e licores.

Até 3 de Janeiro, há ainda actividades quase todos os dias, como contos de Natal, concertos, aulas de zumba e de dança, espectáculos de comédia ou de magia e uma sessão de live cooking.

O mês de festa só termina no Dia de Reis

“O Natal é 'a' festa. Para os madeirenses é o evento mais importante do ano”, define Roberto Santa Clara, director-executivo da Associação de Promoção da Madeira. Se a Festa da Flor “é um grande orgulho, mas feita sobretudo para os turistas”, o Natal é um mês de celebrações e “tudo o que existe aqui nesta altura é um motivo para o convívio”.

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Começa a corrida aos mercados para comprar “os verdes” e os ingredientes para os pratos tradicionais (que culmina na Noite do Mercado, a 23 de Dezembro, quando o icónico Mercado dos Lavradores e as ruas circundantes se enchem até de madrugada para compras de última hora, o tradicional concerto de cânticos de Natal, comes e bebes, animação e muito convívio). Os bolos de mel e a carne de vinha d'alhos, iguarias da época na Madeira, começam por esta altura a ser preparados em família, convidam-se os vizinhos para fazê-lo em conjunto. Há quem já tenha armado a lapinha (presépio) e, a partir de dia 16, decorrem as tradicionais Missas do Parto, sempre seguidas de convívio no adro da igreja, com música e "mata-bicho" feito de aguardentes, licores, broas e bolos.

“Em Lisboa, por exemplo, parece que o Natal são dois dias, às vezes nem isso porque há quem trabalhe na manhã de 24 e no dia 26 já esteja de volta ao emprego. Aqui, os madeirenses conseguiram transformar o dia de Natal no mês do Natal”, compara Roberto Santa Clara. O arranque oficial é dado pelo acender das iluminações e a festa arrancou, verdadeiramente, no dia 11, com a abertura das principais atracções na Avenida Arriaga e as primeiras actuações musicais.

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Das janelas do hotel já tínhamos visto as luzinhas brancas do quadro-presépio do anfiteatro do Funchal. Agora descemos até à baixa da cidade, onde o Natal se enche de cor e de vida. As árvores abraçam-se de lâmpadas ora rosas, ora azuis, vermelhas ou brancas. Pelas artérias pedonais há tectos com franjas de luzes e bolas penduradas; alguns largos iluminam-se com bancos em forma de estrela que vão mudando de cor; as ribeiras reflectem um arco-irís garrido.

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Na Praça do Povo, uma árvore de Natal com 30 metros de altura e riscas largas em vermelho, branco e azul divide atenções com o encarnado vivo do cais, ali ao lado. As ruas estão cheias de gente, madeirenses e turistas, e para onde quer que olhemos há alguém a reunir o grupo para uma fotografia ou casais que se beijam para selfies com as decorações. Aqui e ali, ouvem-se comentários sobre a iluminação, a maioria parece contente com o resultado.
A Avenida Arriaga, apesar de repleta de pessoas, ainda vivia o Natal a meio gás. Agora, já será ali o centro nevrálgico das festividades, dividindo-se entre o Jardim Municipal (onde está instalado um comboio e casinhas de madeira que fazem as delícias dos miúdos), a placa central (onde vimos acabar de montar o presépio com figuras à escala humana e a decoração das 14 barracas do mercadinho de Natal), o Largo da Restauração (que mais uma vez terá a reconstituição de uma aldeia etnográfica) e o jardim norte do Palácio de São Lourenço (palco de metade dos concertos, que decorrerão igualmente na placa central).

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"É um convívio muito giro. Antes e depois do jantar, toda a gente se encontra aqui", conta Isabel Borges, responsável pela decoração da placa. Este ano, as casas cobriram-se de padrões em xadrez, as figurantes – "o mais importante de um evento meu", define – terão saias de folhos com 300 galhos de verduras, azevinhos, espinhos, pinhas e pompons vermelhos.

Todos dias, há bandas filarmónicas e grupos folclóricos a actuar pela baixa da cidade, das 10h às 20h, e concertos no jardim e na placa, desde coros a ensembles, da orquestra de bandolins à Black and White Dixieland Jazz Band. No dia 31, o Natal interrompe-se para celebrar a passagem de ano, que culmina o icónico espectáculo pirotécnico. Este ano, o tema são as "Emoções de Luz" e, durante oito minutos, 37 postos de fogo vão produzir mais de 120 mil disparos naquele que é um dos fogos-de-artifícios mais famosos do mundo nesta quadra.

Não chegámos a viver 'a' festa em pleno, mas voltámos ao continente com a certeza de que se há lugares perfeitos onde vivê-la, um deles é na Madeira.

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