terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A EXAUSTÃO DA JUVENTUDE



Vivemos em uma sociedade que se parece mais com a academia fitness que com um presídio, não é o estranho a principal doença, mas nós mesmos pela saturação do ter-que-ser, o que leva ao infarto da alma nesta geografia entupida de estímulos e positividade. Na condição atual a juventude se exaure em nome do "eu posso", pretendendo o altíssimo desempenho multitarefado, acaba caindo pelo caminho do excesso de si.

O filósofo Byung-Chul Han levanta uma tese que nos faz refletir: na atualidade o "posso tudo" se tornou o imperativo categórico, a saturação do eu por cada um de nós leva à convulsões psíquicas pela massificação do positivo, de modo que diferente de uma sociedade disciplinar foucaultiana, o que vivemos é uma sociedade do desempenho, a imagem do presídio cede lugar à academia fitness.




Clínicas estéticas, extensividade de beleza, orgasmos ininterruptos, felicidade bricolada em redes sociais; revelam a ascensão do fazer-tudo-ao-mesmo-tempo, de modo que a exigência do "ter-que-ser" atinge uma positividade enlouquecedora, sobretudo para os jovens, mergulhados em uma espacialidade frenética, reticulada, intensiva, permissiva e espetacular. Diferente da violência imunológica - onde o vírus é o estranho a ser combativo - o que se expressa cada vez mais é uma violência neural - do igual, que não é privativa, mas saturante, exaustiva e contra ao qual não há anticorpos!



Estamos em autoprodução nesse ambiente de violência neural, incutindo-nos esta saturação, exaurindo o espírito pelo compromisso da disposição eterna e em altíssima performance - sem tempo para contemplar, vivendo em estado de frenesi, multitarefados, tornando-nos bárbaros nas sociedades que se pretenderam pacificadas e excessivamente libertadoras.

Nós, sujeitos de desempenho, não estamos submetidos a uma instância controladora externa, mas ao "eu", tiranos de si, densos de informação e justificadores da condição depressiva, quase como uma inevitabilidade do mundo atual, efeito super-colateral de "ter de ser", sem pausa para deixar-se, sem um átimo de pensamento pausado, mergulhamos na droga e na brutalidade exibicionista porque plantamos a felicidade na "egolatria", vivemos cansados, atravessando noites, explodindo os nervos em crises existenciais, dilacerando nossos corpos nos esticadores de músculos e entupidos de energéticos e pílulas azuis porque não concebemos um "para ti" (só o prazer exclusivo e enfastiado).



Fugimos da entrega aconchegante no colo do outro, num movimento de acolher-se para sentir, juntos, o cansaço gostoso da contemplação mútua. Um "cansaço-nós" que escapa à nossa juventude viciada e deprimida pelo próprio eu, emerge hoje não só cansada, mas cansativa segundo a tese de Han: o doping generalizado é a consequência natural do movimento de elevação de desempenho, a receita (assumida até com orgulho) para o infarto da alma.

 Por Wallace Pantoja
© obvious 


Comentário da Isabel:  Tudo o que está escrito neste artigo do OBVIOUS me passou ao lado, os meus olhos pararam de parpadear quando vi esta imagem do bebé acabado de nascer disfrutando do calorzinho da mãe e comovi-me ao recordar o nascimento do meu filho e que não pude ver uma imagem parecida porque não nos tiraram uma fotografia para ficar gravado esse momento. No entanto tenho-a na minha mente e jamais me irei esquecer. A posição em que a parteira colocou o meu filho foi mais para o lado direito.