segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

À ESPERA...


Ana Fonseca da Luz







Hoje fui ao hospital ver um familiar. Não gosto… Mas quem é que gosta?

Enquanto percorria o longo corredor pintado de branco e dor, caíram-me os olhos numa cama onde jazia uma mulher magra, mirrada, quase transparente. Desviei os olhos, porque a imagem me incomodou, me doeu fundo. Estava entubada, rodeada de máquinas infernais que emitiam sons cavos e perturbantes.

Caminhei o meu caminho, procurei outro destino. No entanto, a imagem que vi de fugida, porque me incomodou, não me saía da cabeça.

Depois de ver o meu doente, ponderei a ideia de procurar outra saída e, assim, não ter de percorrer o corredor que me tinha trazido até ali, evitando aquele cenário que me tinha afligido tanto.

Não havia outra saída. Tinha de sair por onde tinha entrado.

Apressei o passo e disse a mim mesma que, quando chegasse junto àquela cama, desviaria o olhar e pensaria numa música agradável, para assim não me sentir perturbada.

Não consegui. Os meus olhos voltaram a mergulhar naquela imagem que podia ser minha, naquele sofrimento que podia ser o meu e o meu coração encheu-se de lágrimas.

Como não estava ninguém, ganhei coragem e aproximei-me para a ver melhor, para compreender o que é incompreensível, para tentar perceber por que raio temos de sofrer tanto antes de morrer.

Era uma mulher de meia-idade, talvez da minha. Estava afundada na cama. Os olhos, outrora carregados de luz, com certeza, eram agora duas nódoas negras. A pele baça tapava-lhe os ossos a custo e a boca, que já devia ter rido muito, era um esgar de dor.

As mãos, ao lado do corpo, lembravam dois remos parados, cansados de tanto remar. Era como se já tivesse chegado à outra margem e, no entanto, permanecia agarrada àquela cama, a esta vida que se negava a deixá-la.

Entre horrorizada e perplexa perante aquele cenário de dor, aproximei-me mais um pouco e, de maneira quase imperceptível, passei a minha mão na dela, porque aquela mulher podia ser eu…

Continuou imóvel. Apenas a respiração ofegante e sofrida denunciava a sua permanência neste mundo e a agarrava àquela cama imaculada.

Lembrei uma conversa tida há algum tempo com um amigo, em que eu lhe dizia que a dor, tal como Deus, não se vê, apenas se sente. Mas ali, naquele momento, a dor podia ver-se, quase se podia tocar, tal era a sua intensidade.

Não consegui ir-me embora. Continuei em silêncio e pus a minha mão sobre a dela, levemente, com medo de a magoar, de a magoar mais do que aquela sua dor tão visível, com medo de a acordar.

Fiquei assim algum tempo, mão sobre a mão e em silêncio, porque deixei de ouvir os barulhos que me rodeavam.

Passados alguns minutos, ela abriu os olhos. Senti-me perdida, sem palavras, quase sem força para a olhar.

Sorriu-me, entre uma dor e outra. Só os olhos sorriram…

Sem saber o que lhe dizer, porque não nos conhecíamos, perguntei-lhe estupidamente, enquanto a minha mão repousava sobre a dela:

- Está melhorzinha?

Encolheu os ombros, com dificuldade e respondeu-me, numa voz quebrada e sem vida:

- Estou à espera…

- Está à espera da enfermeira? Quer que a chame?

- Não. Estou à espera da morte. Importa-se de esperar comigo?

Fiquei sem palavras, sem forças, sem saída…

Não respondi com palavras, apenas acenei com a cabeça em sinal afirmativo.

Puxei um banquinho que estava perto e sentei-me ao lado da cama.

A sua solidão, naquele momento, era a sua única companhia e ninguém deveria, nunca, morrer sozinho.

Apertei-lhe a mão com um pouquinho mais de força, para que soubesse que eu estava presente e ela, indelevelmente, apertou a minha.

Impressionante como a sua cara mudou. Pareceu-me mais serena ou apenas menos sozinha.

Não sei quanto tempo passou. Ali fiquei, até que adormecesse… ou partisse…

Quando finalmente saí do hospital, levava a alma apertadinha de tanta tristeza, de tanto medo…

Tinha tantas lágrimas dentro de mim que, durante algum tempo, não consegui conduzir. Fiquei dentro do carro, aguardando que as forças me voltassem e que as lágrimas me secassem nos olhos.

No outro dia, à mesma hora, voltei ao hospital para visitar o meu doente.

Um nó invisível apertava-me o estômago e aquele corredor da morte pareceu-me interminável.

Na cama onde no dia anterior uma mulher teimava em viver, cheia de vontade de morrer, estava agora um homem recostado em almofadas, sorridente, à espera que o viessem buscar, porque tinha tido alta.

Passamos a nossa vida à espera. Sempre à espera de qualquer coisa.

Ora à espera de morrer, ora à espera de viver…


Comentário da Isabel: Essa é a maior dádiva que se pode fazer a um ser humano, o ajudá-lo a ultrapassar a "fronteira". Doi muito!







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