domingo, 15 de novembro de 2015

VERDES OLHOS À JANELA






"O Vale de Santarém é um destes lugares privilegiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita: não há ali nada grandioso nem sublime, mas há um como simetria de cores, de sons, de disposição em tudo quanto se vê e se sente, que não parece senão que a paz, a saúde o sossego do espírito e o repouso do coração debvem viver ali, reinar ali um reinado de amor e benevolência. As paixões más, os pensamentos mesquinhos, os pesares e as vilezas da vida não podem senão fugir para longe. Imagina-se por aqui o Éden que o primeiro homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu coração.
À esquerda do vale, e abrigado do norte pela montanha que ali se corta quase a pique, está um maciço de verdura do mais belo viço e variedade.(...)
Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por entre um claro das árvores a janela meia-aberta de um habitação antiga mas não delapidada (...).
Interessou-me aquela janela.
Quem terá o bom gosto e a fortuna de morar ali?
Parei e pus-me a namorar a janela.
Encantava-me, tinha-me ali como num feitiço.
Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto por detrás... Imaginação decerto! Se o vulto fosse feminino!... era completo o romance.
Como há-de ser belo pôr o Sol daquela janela!...
E ouvir cantar os rouxinóis!...
Estava eu nestas meditações, começou um rouxinol a linda e desgarrada cantiga que há muito tempo me lembra de ouvir
Era ao pé da janela! (...)
O arvoredo, a janela, os rouxinóis... àquela hora, o fim da tarde... que faltava para completar o romance?
Um vulto feminino que viesse sentar-se àquele balcão - vestido de branco - oh! branco por força... a frente descaída sobre a mão esquerda, o braço direito pendente, os olhos alçados ao céu... De que cor os olhos?(...)
- Os olhos, os olhos... - disse eu pensando já alto, e todo no meu êxtase - os olhos... pretos.
- Pois eram verdes!
- Verdes os olhos... dela, do vulto da janela?
- Verdes como duas esmeraldas orientais, transparentes, brilhantes, sem preço.
- Quê! pois realmente?... É gracejo isso, ou realmente há ali uma mulher, bonita, e?...
- Ali não há ninguém - ninguém que se nomeie hoje, mas houve... oh! houve um anjo, um anjo, que deve de estar no céu.
- Bem dizia eu que aquela janela...
- É a janela dos rouxinóis.
- Que lá estão a cantar.
- Estão, esses restam ainda como há dez anos - os mesmos ou outros, mas a menina dos rouxinóis foi-se e não voltou.
- A menina dos rouxinóis! que história é essa? Pois deveras tem uma história aquela janela?
- É um romance todo inteiro, todo feito como dizem os franceses, e conta-se em duas palavras.
- Vamos a ele A menina dos rouxinóis, menina com olhos verdes! Deve ser interessantíssimo. Vamos à história já. (...)
Já se vê que este diálogo passava entre mim e outros companheiros de viagem.
Apeámo-nos com efeito; sentámo-nos; e eis aqui a história da menina dos rouxinóis como se contou.

(...)" in Almeida Garrett, "Viagens na Minha Terra"