sábado, 14 de novembro de 2015

UM INFINITO DOMINGO À TARDE




Regra geral, um ser humano agora vive tanto que acaba por arrastar muito mais penas do que as que lhe dizem respeito, e isso acaba por notar-se-lhe no rosto. Uma das consequências da crescente longevidade do habitante das sociedades desenvolvidas, em que, por outro lado, não se costuma pensar demasiado, é que, contrariamente ao que sucedia há algumas décadas, os velhos de hoje têm tempo para assistir à devastação da vida dos filhos, veem-nos praticamente envelhecer, fracassar, cansar-se da luta. Antes, na hora da morte dos pais, os filhos eram ainda fortes, tinham projetos, mulheres bonitas, um futuro aparentemente luminoso. Agora é fácil que um avô contemple antes de morrer o divórcio do neto (vê-o aos domingos sentar-se à mesa na casa da família, sem um cêntimo, com a camisa amarrotada), enquanto no mundo anterior a este, por razões de tempo, o neto não era mais do que uma criança que às vezes ia buscar ã escola, a quem dava a mão no regresso a casa e ajudava a conseguir nos alfarrabistas os cromos que lhe faltavam na sua coleção de futebolistas. Hoje, o velho que morre não abandona um mundo em marcha cheio de projetos e promessas, como sucedia dantes, mas, mais do que nunca, um vale de lágrimas. Contudo, esta amarga circunstância não deixa de ter a sua feliz contrapartida: custa sempre menos deixar para trás uma paisagem desolada do que uma cheia desses pássaros que Juan Ramón dizia que ficariam a cantar. O que resta agora, para além da terra que cobre a sepultura, é um infinito domingo à tarde, uma bruma de aborrecimento e de derrota. E é mais fácil partir assim porque nada embala melhor do que o cansaço. Não é difícil abandonar uma festa quando já não restam raparigas, bebida, música ou forças. 

Carlos Castán, in 'Má Luz'