quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Um homem e uma mulher I, II, III






Daniel Vicente (www.facebook.com/coracao.semmuros)
16/11 às 11:23 ·


Um homem e uma mulher

Com passado, com presente, com sonhos de futuro.
Com sonhos desfeitos e com sonhos por sonhar.
Encontram-se e tocaram-se antes de se tocar.
Sentiram-se, partilharam, suaram ainda antes dos suores se misturarem.
Um homem e uma mulher.
Que se encontraram, que se tocaram depois de se terem tocado...
E a pele trouxe a certeza que o sentir antecipara.
Sim. Sim. Sim...
Os arrepios... O desejo, o toque,o cheiro, a pele.
Quanto mais os suores se misturavam, mais forte ficava o sentir.
E os olhos falaram e disseram tudo. E disseram: mais. E mais. E mais....
E os sorrisos, que são asas que se colam aos lábios, trouxeram de volta a infância e o país dos sonhos.
E os gemidos, que são música dos anjos, fizeram o coração bater a um só ritmo.
Dois corpos, uma só Alma.
Única
UM

Um homem e uma mulher, parte II

Amou como nunca tinha amado.
Amou como sempre quis amar.
Desejou como sempre quis desejar...
E sentiu-se desejada como sempre quis sentir.
Sentiu borboletas, taquicardias, suores, humidades...
Sentiu vontades incontroláveis de correr para os braços dele.
Sentiu ao acordar, sentiu no trabalho. Sentiu quando voltava a casa cansada, sentiu quando não conseguia adormecer.
Era dele que queria sentir o respirar quando acordava. Dar-lhe uma cotovelada porque eram horas de levantar. Olhá-lo nos olhos. –Tem de ser? -Tem de ser.
Era ele que a fazia levantar os olhos dos papéis com um sorriso inexplicável (ela que sempre foi tão responsável). E sorria sem razão.
Era ele que queria que a aguardasse quando voltava cansada para a casa vazia. Com qualquer coisa de intragável que ele tivesse cozinhado. Ou, quando ele vinha mais tarde, preparar-lhe um jantar à luz de velas, mesmo sabendo que ele não era romântico.
Era a seu lado que queria estar sentada no sofá da sala, tocando-se ao de leve e olhando-se pelo canto do olho. Até que se envolviam de tal forma que não conseguiam chegar ao quarto.
Sim. Era com ele que queria experimentar tudo. O que tinha medo e o que nem sabia que existia. Descobrir a dois. Dar-se Toda. Ser Tudo para ele.
Pensou. E sentiu. E foi feliz.
Combinaram encontrar-se.
Organizou tudo como mulher madura que era, como profissional competente que sempre foi. Dentro dela sentia a força da adolescente descontrolada que a fazia sorrir sem sentido. Calculou tudo ao pormenor. Mesmo sentindo aquela coisa inexplicável na barriga, aquela humidade estranha onde tudo secara porque aprendeu a ignorar aquela parte do seu corpo, do seu ser. Sentia-se viva.
Nunca o tinha tocado ou cheirado. Mas parece que o conhecia desde sempre.
Escritório, casa, família, amigos. Tudo no seu lugar. E saiu ao encontro dele.
Os últimos quilómetros foram os mais difíceis. Por várias vezes se perguntou o que estava ali a fazer. Ela, a mulher que sempre soube o que queria e o que não queria. Que sempre soube canalizar a energia em objectivos bem definidos, contornar ou ultrapassar obstáculos. Uma mulher que que lutou num mundo desigual e ganhou. Batalha após batalha, ganhou todas as guerras. Ganhou o respeito dos outros e, acima de tudo, ganhou o respeito por si própria.
Ela que sempre planeou, geriu, lutou e conseguiu, corria agora para os braços de um desconhecido.
Mas chegou. E viu-o antes que ele a visse a ela. Sim. Era ele. Não tinha dúvidas, era ele.
A respiração suspendeu-se até ele chegar ao carro. Abriu a porta.
Tocaram-se antes das palavras.
Sim. Sim. Sim.
Conhecia aquele corpo, aquele abraço. Conhecia aquele cheiro. Sempre conheceu.
E sentiu que aquele corpo a conhecia. Sentiu que aquele corpo a desejava como ela sempre quis ser desejada.
Sim, está certo.
Sim faz sentido.

Um homem e uma mulher, parte III

Todos os seus medos e inseguranças desapareceram quando se tocaram pela primeira vez.
Há muitas noites que ele não dormia. Desde que combinaram encontrar-se.
As cicatrizes recentes ainda não tinham endurecido e os espinhos daquela rosa que o fez voltar a sentir arranharam-no dolorosamente em tantas situações...
Mas agora eram também os fantasmas antigos que voltavam, reforçados. As inseguranças que o afastaram de viver e recolher-se num mundo cinzento e sem sal, ocupavam-lhe as noites.
Cansado...
Por mais que se sentisse mais activo que nunca. Por mais que sentisse as hormonas aos saltos, a dificuldade em controlar o adolescente que voltava sem borbulhas.
Como seria quando o momento chegasse?
Até o outro cansaço o preocupava. Passou ao lado da sua vida mais activa, da sua pujança física. Mas tinha de ser forte. Acordar tarde não era motivo para não andar desperto.
Sim. Sabia o que valia. O que poderia sentir e, principalmente, o que era capaz de dar. Teve, há bem pouco tempo, muitas provas disso. E conhecia as borboletas, conhecia aquele sorriso traquina, aquele brilho nos olhos quando sentia “algo” a manifestar-se só por pensar nela. Porém...
Naquela tarde não conseguiu ir trabalhar. Disse qualquer coisa ao chefe e saiu rumo à baixa-mar.
Mas nem os barcos na ria, nem o mar ao longe, nem os conhecidos e desconhecidos que com ele se cruzavam, o tranquilizaram.
Ela vinha. Estava a chegar.
Semanas, dias, eram agora horas, minutos...
Ela e os fantasmas ocupavam o seu pensamento, o seu sentir.
Decidiu ir conhecer o espaço onde se iriam encontrar. Verificou tudo, conferiu tudo.
Planeou. Sim, era importante ser ele a vê-la primeiro. Ter tempo, espaço, era uma vantagem que queria para ele.
Mas foi ele que foi visto, foi ele que foi sentido. Quando deu por ele, já ela o observava. O coração parou. Desceu as escadas como que flutuando.
Não se lembra da porta do carro a abrir. Era noite. Escuro.
Quando a viu já os corpos se tocavam.
E não teve dúvidas. Os fantasmas foram para onde nunca deveriam ter saído.
E não foram precisas palavras..