sexta-feira, 13 de novembro de 2015

TREMO SEMPRE DIANTE DO AMOR





Nadia, deves ter visto a falta de jeito com que no último momento te pedi o número do telefone e este endereço de correio eletrónico para onde te escrevo, e deves ter-te apercebido também da peregrina desculpa: os dois sabemos que podes conseguir de mil outras maneiras diferentes 05 livros que fiquei de te emprestar. Há-os em muitos lados. Toda a gente os tem. Pode até acontecer que já façam parte da tua biblioteca há anos e que neste momento estejas a olhar as suas lombadas da cadeira onde estás sentada enquanto me lês; e também pode acontecer, na realidade não me admiraria nada, que seja eu quem não os tem nem os teve nunca. Durante o jantar não conseguia tirar os olhos de ti, mas isso já tu sabes. Perante isso, apenas posso esperar que o resto dos comensais, especialmente os teus amigos, não se tenham apercebido de até que ponto me eram indiferentes as restantes pessoas e conversas. Como viste, tenho já um longo caminho percorrido. Sou um homem com passado, como se costuma dizer, embora isso não faça com que seja mais fácil para mim escrever uma carta como esta. Porque isto é uma carta, não é verdade? Por mais que chegue a ti por intermédio de umas ondas misteriosas no ar e de toda a panóplia de tomadas e de cabos, tremo sempre diante do amor. E não te assustes com a palavra que estou a usar. É a falta de outra para nos entendermos melhor, embora talvez não seja de modo algum inadequada se pensar em como tens estado a ocupar a minha cabeça desde a noite do jantar, em como regressei a casa assobiando de contente e ao mesmo tempo aterrado. Mas não tenhas medo, mesmo que agora te oferecesse a minha vida inteira, sem procurar avaliar o apetecível ou não de semelhante oferta, é evidente que do ponto de vista da quantidade ia ser bastante pouco.



Em certas idades, dar a vida já ê dar apenas nada. Corrijo se preferires: tremo sempre perante a ideia de uma história que começa, tal como quando era um aluno com pouco mais de três palmos de altura, como sucede nesta noite em que te escrevo, já velho, com pelos nos nós dos dedos e uns óculos sem os quais não veria nada diante do nariz, operado a uma montanha de coisas, meio apodrecido por dentro. Especialmente tremo quando, como agora, o assunto está naquela fase em que, pelo menos no papel, ainda pode ser tudo ou nada, que acabe por entregar-te o que me resta de vontade e de tempo, desde aqui até cair o pano, ou então que não te torne a ver. Sem desdenhar, como ê evidente, nenhuma das maravilhosas possibilidades intermédias que têm a ver com vires a minha casa de vez em quando ouvir música sem complicações, deixares-te cair no mesmo sofá em que agora me faltas, deixar que te dispa. Mas o caso é que há uma moeda no ar, caindo há dias em câmara lenta, e é isso que me faz tremer e implorar a não sei que deuses que caia com aquela face que não me condene a sonhar-te apenas.

Carlos Castán, in 'Má Luz'