quarta-feira, 11 de novembro de 2015

São Martinho e o Magusto






Uma lenda, uma tradição e eis que chegamos ao magusto de São Martinho, costume antigo que se perde nas brumas do tempo…

Conta a lenda que um cavaleiro romano, pertencente às legiões do imperador Juliano, fazia a ronda num dia de enorme temporal e viu um velho mendigo cheio de fome e frio, que se encontrava semi-nu. O mendigo dirigiu-se ao cavaleiro e pediu-lhe uma esmola.

Compadecido com a miséria do velho, Martinho, o nome do soldado, terá dado a sua capa a este, ou segundo outras versões, tê-la-á cortado ao meio. Após este acto, as nuvens esconderam-se e o Sol brilhou. Diz-se que foi um milagre e desde esse dia começaram a chamar o Verão de São Martinho ao sol que aparece nos primeiros dias de Novembro. O Verão de São Martinho também é conhecido por ‘Verão dos marmelos’, devido à sazonalidade destes frutos nesta época, o mesmo acontecendo com as castanhas.

Aliás, São Martinho é considerado como o santo dos bons bebedores, já que é nesta atura do ano que se faz a prova do vinho novo acompanhado das respectivas castanhas.

Os adágios populares não deixam dúvidas: “Em dia de São Martinho/Faz magusto e prova o vinho; Em dia de São Martinho/Lume, castanhas e vinho.”

É tradicionalmente no dia de São Martinho que se ‘inaugura’ o vinho novo, que este se prova e se atestam as pipas; de acordo com a velha legislação municipal, era mesmo proibido, em muitas partes, vender o vinho novo antes do São Martinho, sob pena de multa. E como este se trata de um vinho especial que deve ser bebido antes do Verão, devido às suas características de fermentação, os mais bebedores não se fazem rogados.

Aliado aos festejos do dia de São Martinho está o tradicional magusto, tradição ainda mais antiga que a data consagrada a este santo. Os magustos começavam no dia 28 de Outubro, dedicado a S. Simão e duravam até ao São Martinho. Nesse dia, decorria o magusto familiar em que se reuniam os familiares na casa de um deles, assavam-se as castanhas, porque se costumava dizer que castanhas cruas faziam piolhos, e na lareira era pendurada uma panela furada, o assador, e metiam lá as castanhas. Depois destas assadas, jogava-se ao ‘par ou pernäo’ e diziam-se os seguintes versos: ‘Dia de S. Simão, Só não assa castanhas, Quem não é cristão.’

Em tempos idos a festa de rua era orientada por uma ‘Confraria de São Martinho’ cujos elementos eram escolhidos entre os mais bebedores da aldeia, tinha como mordomo o melhor deles todos. Durante a noite era formada a ‘confraria’ que, com tachas de palha, acesas, andavam pelas ruas da freguesia a cantar e a tocar harmónio, guitarra, zabumba e ferrinhos, já tocados pela bebida e chamando a atenção das moças, passando pelas várias adegas ou tabernas.

Nas Beiras os rapazes, no dia de São Martinho, andam em fila pela aldeia a ‘furar as adegas’, para provarem o vinho novo e também aí se conhecem as procissões dos bêbados. No concelho de Foz Côa, em Pocinho, conhece-se o costume de, na noite de 11 de Novembro, os rapazes percorrerem todas as ruas da povoação com campainhas e chocalhos das cabras e ovelhas, acordando toda a gente com o barulho que fazem.

Os ‘magustos’ aparecem em todo o Minho, em casa ou nos campos, em Trás-os-Montes, nas Beiras e no Douro e na região e da própria cidade do Porto. Por exemplo em Vila do Conde, as castanhas comem-se com roscas de pão de trigo e nozes. Em Fafe, eles começam à tarde e duram até à noite, as castanhas assam-se em fogueiras que se acendem no meio da rua, e o vinho circula em cântaro. Nessa noite, geralmente, joga-se ao pau.

No sul o costume não apresenta este carácter de generalidade, mas assinala-se em várias partes. Em muitas regiões rurais do país, nomeadamente no noroeste, a festa anda associada à matança do porco. No Minho o dia situa-se na época das primeiras matanças e nas provas do vinho novo.

No entanto, nem todas as terras portuguesas cumprem estas datas para os tradicionais magustos. Em Vila Viçosa, o ‘Magusto da Velha’ tem lugar no dia 26 de Dezembro. O magusto da Velha decorre em Vila Viçosa desde 1698. Para cumprir a tradição, dois homens da aldeia sobem ao alto da torre da Igreja para atirar ao resto do povo, que aguarda no largo da igreja, bastantes quilos de castanhas que depois de assadas são ‘regadas’ com vinho tinto, especialmente guardado para o efeito.

Este costume está ligado a uma obrigação contraída pela Igreja de Vila do Porco, nome antigo da actual Aldeia Viçosa. Reza a história, que uma velha abastada terá feito uma doação à Igreja comprometendo-se o clero em rezar à Velha um ‘Padre Nosso’, um dia todos os anos, dia em que o povo pudesse beber vinho e comer castanhas. A vontade foi feita e a tradição viria a perpetuar-se durante séculos e, até aos nossos dias, não houve geração que não a cumprisse, embora não inteiramente, uma vez que o dia de celebração a pedido da velha senhora seria o 1º de Janeiro.

Mas cuidado se quer seguir esta tradição em Vila Viçosa, porque aqueles que se baixam para apanhar as castanhas estão ainda sujeitos a apanhar com as ‘cavaladas’, brincadeira instigada por uns copos a mais e que consiste em alguns homens saltarem para o dorso dos outros, batendo-lhes em partes mais sensíveis.

Se não pode acompanhar estes festejos, então não se esqueça de comer pelo menos algumas castanhas assadas, acompanhadas pela água-pé, para aquecer nas noites mais frias que se avizinham.

Magusto