domingo, 1 de novembro de 2015

Omi estranho em casa Nunca Mais!





Criada pela mineira Ana Luisa Monteiro Correard, de 27 anos, empresa traz alternativa para mulheres que se sentem desconfortáveis em abrir a porta de casa para homens desconhecidos

Por Anna Beatriz Anjos.

Em agosto deste ano, a mineira Ana Luisa Monteiro Correard, de 27 anos, decidiu investir em um “bico” para complementar sua renda. Formada em Cinema de Animação, trabalhava como editora em uma produtora de vídeo em São Paulo e, paralelamente, começou a oferecer serviços de manutenção doméstica para amigas e conhecidas. Segundo a jovem, além de juntar dinheiro, seu objetivo era proporcionar tranquilidade às clientes, que muitas vezes não se sentem à vontade abrindo as portas de casa a homens desconhecidos.

A ideia de Ana surgiu a partir de uma situação vivenciada por ela mesma. “Aqui em São Paulo, moro com um amigo. Um dia, pedi uma entrega de gás num lugar onde ele sempre pedia, mas estava sozinha em casa. Aí o entregador começou a perguntar: ‘você está sozinha?’, ‘mas e aquele seu amigo que mora aqui, não está?’. Tive que inventar um monte de desculpas, fiquei me sentindo péssima”, relata. “O entregador foi embora e pensei: queria um serviço feito por mulheres, me sentiria muito melhor. Quando comecei a falar isso, vi que muitas mulheres tinham a mesma vontade. A ideia inicial era um serviço de entregas, mas eu não tinha como fazer porque não dispunha de capital para investir. Aí percebi que quem fazia os reparos em casa era eu, então por que não oferecer esse serviço para outras mulheres? Fiz um post no Facebook e bombou.”

A postagem a que se refere Ana foi publicada no Facebook em 12 de agosto. No dia seguinte, conforme conta, já tinha sua primeira cliente. Passadas duas semanas, as demandas haviam crescido tanto que, para atendê-las, Ana solicitou férias atrasadas ao seu então chefe . Diante de uma resposta negativa, se demitiu e tomou a decisão de transformar o “bico” em profissão. Aí surgia o M’ana, cujo slogan é autoexplicativo: “Mulher conserta para mulher”.

Desde o início de setembro, Ana presta serviços de reparo elétrico e hidráulico, instalações e montagens em geral e acabamento de obra na região da capital paulista. Há um mês, conta com uma sócia, a arquiteta Katherine Pavloski, que oferece também consultoria em tintas. Juntas, elas atendem apenas clientes mulheres. “Quando algum homem nos liga, não atendemos pelo nosso próprio conforto e indicamos para um parceiro em que confiamos”, explica.

No início do empreendimento, Ana recorreu a cursos básicos de administração para aprender minimamente a gerir sua empresa. Hoje, ela já tem CNPJ regularizado e a plano é, em janeiro de 2016, mudar de categoria – do Simples Nacional para microempresa (ME) –, além de contratar novas colaboradoras. De acordo com a empresária, desde setembro a renda gerada já é suficiente para “viver”, brinca.

Mas o lucro não é a única meta do M’Ana. “Não que [a empresa] não vise isso, lógico que visa, mas envolve questões políticas e sociais, do empoderamento, de tentar quebrar um pouco com esse machismo”, destaca a mineira. Ela afirma ter se percebido feminista há alguns anos, durante a faculdade e, desde então, procura um modo de colocar em prática mais concretamente os ideias pregados pelo movimento. “[O M’Ana] foi a forma que encontrei.”

“É socialmente imposto que isso [trabalhos de manutenção doméstica] não foi feito para a mulher. As mulheres sabem fazer e já fazem, inclusive – um dos feedbacks que mais recebo na página é de mulher dizendo ‘aqui em casa também sou eu que faço tudo’. Só não se colocam no mercado de trabalho porque socialmente isso nunca foi para elas”, argumenta Ana Luisa. “Uma das histórias [que recebeu na fanpage] foi de uma menina contando que sempre quis ser eletricista, mas nunca estudou para tanto porque o pai dizia que ela não teria força para carregar uma escada. Não é uma coisa que as pessoas fazem por maldade, mas é socialmente imposto que mulheres não podem, que têm que ser delicadas, femininas.”

Além das mensagens sobre exemplos de mulheres que também lidam com reparos residenciais, a página da M’Ana no Facebook recebe diversos relatos de assédio cometido por prestadores de serviço. “Nas duas primeiras semanas, 90% das mensagens que chegavam na página eram sobre isso”, aponta Ana. “Falo que não vejo a hora de que meu trabalho não seja necessário, que seja só uma escolha. Hoje, ele é necessário porque, devido ao que a sociedade vende, os homens ainda se acham no direito de se apoderar da mulher e não vê-la como uma pessoa. Até mesmo o prestador de serviço não enxerga a cliente como pessoa. Eles se sentem no direito de fazer comentários [abusivos], e não têm.”

Já em relação ao próprio trabalho do M’Ana, as reações vieram basicamente de duas maneiras, diz. “[Houve] homens que já trabalhavam na área e nos prestaram apoio. Depois que saímos na mídia, vieram os comentários de ódio, do tipo ‘ah, é claro que é sapatão’ – como se isso interferisse na qualidade do meu trabalho –, ou ‘não vou chamar essa mulher porque vai parecer um filme pornô ela entrando na minha casa’”, relembra. “A minha sorte é que não desanimei [após os comentários], porque recebi muitas mensagens boas e bonitas de outras mulheres me apoiando. Mas, na época em que tudo aconteceu, entendi porque as mulheres desanimam: não recebem o apoio necessário. A gente está aberta para dar esse apoio, tanto que quando outras meninas de outras cidades nos procuram querendo abrir negócios parecidos, a gente apoia justamente porque sabemos que as críticas virão e não queremos que elas desanimem.”