quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O MERCADO DOS SENTIMENTOS





Numa brilhante alegoria escrita como poema narrativo, leva-nos a percorrer uma grande superfície comercial, não em busca do prosaico do quotidiano material implicado na necessidade de subsistir, mas na procura(?) dos sentimentos e afectos que dão significado à vida.
O comprador/poeta reconhece alguma da oferta por experiência própria, outra por ouvir dizer. E se nesta viagem é parco nas escolhas, conta-nos o que aos outros compradores atrai.
Com ele visitamos uma secção de sentimentos ambivalentes, a secção das nostalgias e saudades, continuamos pela secção dos artigos relacionados com sentimentos liberados pela poesia, e chegamos à confusão na área reservada às emoções fortes seguida da dos sentimentos gerados por amantes, culminando na secção dos orgasmos. Exausto segue o poeta para as caixas de pagamento. Feito o balanço, promete voltar.
É do nosso tempo que se trata e do entendimento moderno do que devem ser as relações nos afectos — um dar e receber — com contabilidade diária de que cada um recebeu convenientemente em relação ao que pagou. Mas é mais: é a alegoria de que os sentimentos pedem ser mercadoria a que o marketing se aplica e a tecnologia intermedeia.
Lido o poema, da sua dolorosa e mansa ironia fica-nos o sabor da impotência perante a avassaladora presença das leis do mercado na vivência afectiva hoje.
Vício da Poesia