quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O dia em que abandonei o Facebook


 


Um relato sobre o dia em que decidi me livrar de um vício chamado Facebook, liberando assim uma parte preciosa do meu tempo para coisas mais importantes e interessantes e deixando de fazer parte da estatística que diz que o aplicativo guarda dados bastante peculiares de aproximadamente um bilhão de pessoas no planeta.

 

As redes sociais nos dão uma falsa sensação de pertencimento

Algumas coisas são fáceis de se acostumar, difíceis de se largar. Como uma droga poderosa, tomam conta de nós e nos viciam, arrebatando nosso tempo, nossas relações e nossas vidas.

Nasci num mundo sem telefones e sem computadores. Minha rede social era real, palpável, conseguia me relacionar de forma íntima e frequente com todos (sim, todos) meus amigos e familiares, sentir o afeto e o prazer de estar junto dos meus. O mundo era para mim sinônimo de liberdade, espaço a ser explorado, conquistado e vivido.

Ainda me lembro da primeira vez que me deram um celular para fazer uma chamada, de dentro de um carro, sem ter que descer e procurar um orelhão na chuva - foi uma sensação fantástica. Me lembro também de quando entrei no Facebook, apenas para testar despretensiosamente por uns dias, ingênuo que era. Desde então, muita coisa mudou. Meu corpo, antes composto de cabeça, tronco e membros, ganhou uma nova configuração e hoje compõe-se de cabeça, tronco, membros e celular. É impossível ir do quarto à sala sem levar o aparelho comigo. Outra coisa que mudou é que não consigo imaginar minha vida sem o Facebook. Em minha fantasia, sair da rede é quase como morrer. Na Grécia Antiga, morrer era deixar de viver entre os homens; pois então, para mim, morrer é deixar de ter uma conta no Facebook. Como assim ficar sem saber o que está acontecendo lá fora, enquanto estou aqui dentro?

 
Cena do filme 1984, baseado na obra de George Orwell

Para quem nunca leu 1984, o livro fala de um mundo em que todos eram vigiados o tempo todo pelo Grande Irmão, uma "engenhoca" fabricada por um governo totalitário e que mantinha as pessoas isoladas e sob rígido controle. Da obra, vem o termo Big Brother. A situação descrita no livro, publicado em 1949, logo após os horrores da Segunda Guerra e do nazismo, vem se tornando realidade nas últimas décadas. A tecnologia, que para alguns foi algum dia a esperança de liberdade e emancipação, impõe-se como ferramenta de controle e aprisionamento de nossa consciência. Há poucos dias, compartilhei com meus amigos um artigo que li sobre tudo o que o Facebook sabe a nosso respeito e é estarrecedor: eles têm o mapa de nossos rostos, para reconhecimento facial; sabem em que lugares estivemos, mesmo quando estávamos desconectados do aplicativo; sabem tudo o que vimos na internet e quanto tempo ficamos em cada página; têm acesso a fotos de nossos celulares; conhecem nossos hábitos de consumo; conhecem todas nossas interações, comentários, curtidas, marcações e buscas; sabem tudo o que nossos amigos compartilharam a nosso respeito; sabem o que conversamos em salas privadas pelo Whatsapp, aplicativo comprado por eles em 2014. Imaginem quantas outras informações devem ter e que tipo de controle exercem nas vidas de um bilhão de pessoas, com todo esse conhecimento. Aliás, não me surpreenderia nem um pouco saber que Zuckerberg é, na verdade, contratado por uma agência governamental para controlar um sétimo do planeta. E não se trata de teoria da conspiração. Talvez George Orwell tenha sido até ingênuo com tudo o que imaginou e escreveu em 1984, comparado com o que existe hoje.

Além disso, é tanto o tempo que passo distraído com o Facebook, lendo notícias que fazem pouca diferença, me inteirando sobre o que meus amigos comeram no café da manhã e compartilhando opiniões sobre isso ou aquilo, banalidades sem fim. Distraído. E é como quer o Sistema que eu siga minha vida: distraído e controlado, dócil e obediente, como um fantoche, cujos movimentos são manipulados pelo Sistema através de fios invisíveis a olho nu. O problema (para eles) é que não gosto de passar a vida distraindo-me, prefiro manter-me atento. Gosto de ter consciência, de saborear o alegre e o triste, desde que inteiro e real. E é por isso que hoje abandono esse morno e controlado mundo virtual e me lanço de braços abertos ao desconhecido (um dia, há muito tempo, já vivido) mundo sem Facebook.

Aliás, li que as pessoas que deixaram o aplicativo por uma semana se sentiram mais felizes que as que se mantiveram conectadas. Quem sabe?



© obvious:  Claudio Lasas