segunda-feira, 9 de novembro de 2015

História da Melhor Amiga


O processo de construção de uma amizade especial é um fenômeno transformador para ambos os lados. A gente se descobre no outro e o outro se descobre na gente. Cria-se uma corrente que vai rio abaixo de sentimentos, pensamentos e experiências que se cruzam na loucura de uma vida de pedras no caminho e desvios inesperados. A corrente desta amizade vai firme, de mãos dadas, não importando se é um tempo de calmaria ou de tormentas.



Amigos se encontram de modo casual. E foi assim com a gente...

Numa roda na qual todos falavam, estávamos as duas anônimas uma diante da outra. Num puxar de conversa despretenciosa, nos engajamos num bate-papo destes no qual tudo é novidade, o tempo passa tão rápido que nem conseguimos anotar a placa!

Poucos dias depois, combinamos uma café numa livraria. Chegamos só sorrisos porque já sabíamos que a conversa iria ser daquelas de vento em popa.

Conhecer uma pessoa é sempre um capítulo novo que se inaugura na vida da gente. É como aquele caderno novinho que acabamos de comprar, ainda com cheiro de recém saido do forno, abarrotado de páginas brancas nos tentando a mergulhar em suas linhas.

É bem gostoso ser uma novidade na vida de alguém, não é? A pessoa está 100% focada em nos ouvir e nós à ela. Vamos nos descobrindo no outro e o outro na gente.

Quando a identificação é imediata, parecendo coisa de outras vidas então, nos sentimos realmente em casa com este outro, esta nova possibilidade que se desdobra de aprendizado, troca, encontro, descoberta, união, inspiração.

Não precisa de muito tempo para que já nos entreguemos de cabeça neste relacionamento que floresce com um jeito assim tão adoravelmente promissor.

Nos desabrochamos em confidências. É uma entrega, um desprendimento instintivo em confiar sem escudos, sem máscaras. É a gente sem desfarces porque o outro nos dá esta sensação de porto-seguro, aquele farol que está sempre lá mantendo a certeza de que existe um caminho de calmaria não importa a impetuosidade das tormentas. A gente não precisa temer. É um compromisso de confiança, de bem querer, o pacto do importar-se mutuamente, incondicionalmente.


Em cada nova conversa, tudo é passível de acontecer. Todos os sentimentos podem vir à tona sem reservas. Rolamos de rir, choramos as pitangas, causamos surpresa, falamos bobagens, ás vezes parecemos duas loucas desvairadas. Simplesmente somos nós uma com a outra, na íntegra.

Sabe como é, neste tipo de relacionamento com a melhor amiga, não existe julgamento, luta de braço, comparação, rótulos, balas perdidas, hesitações, medo de parecer um ET, porque mesmo que pareçamos, a melhor amiga ainda vai admirar a nossa originalidade. Existe apenas a transparência inata. É uma entrega de cabeça no vínculo com o outro! Vem naturalmente. Não há nada fabricado, forçado, forjado de algo que não tem significado. Tudo tem um significado nesta relação, o compromisso é sólido, os sentimentos profundos, as experiências transformadoras. Simplesmente brota da vontade de estar junto, é fruto de identificação espontânea e instantânea.

Partilhar as coisas com a melhor amiga tem sempre aquela urgência do "para ontem". Não economizamos pensamentos ou emoções. A gente quer preencher a nossa vida com o outro. Já virou mania, já virou paixão!

A história da melhor amiga ou do melhor amigo a gente conta nos dedos, porque não é com todo mundo que acontece, senão não seria assim tão especial. É aquela coisa de encontro de almas. E encontro de almas vem no singular. É raro. Ás vezes é coisa de 1 em 1 milhão. Reconhecemos logo o valor que o outro vai ter, a dimensão de espaço que ocupará, a profundidade dos afetos, através do significado que a pessoa traz à tona não somente na sua presença, mas especialmemnte na sua ausência.


SIMONE BITTENCOURT SHAUY
Enfermeira por paixão. Escritora por predestinação. Ilustradora por inclinação. Mulher plural por emancipação. .



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