domingo, 29 de novembro de 2015


HIPSTERS E HIPSTERISMOS





Quando minha professora de francês me perguntou por que eu gostava do bairro onde eu moro, descrevi algumas características da minha região. Não tem restaurantes em rede, não tem shopping center, não tem vallets de estacionamentos à frente de restaurantes, não tem segurança na porta da boutique. E mais: a melhor sorveteria da cidade só existe no meu bairro. Fica do lado de um boteco nordestino com comida ímpar, vizinho de uma pizzaria tocada por argentinos. Os hermanos não cobram mais que 35 reais (10 euros) por uma pizza gigante entregue em casa feita com produtos extremamente frescos e saborosos.

À frente desta pizzaria chegou uma concorrente gigante. É uma dessas pizzarias de rede. Dois andares, adega, vallet, decoração medonha, mas pretenciosamente chique e estilosa. Está há seis meses às moscas. Não tem a cara do bairro. Acho, então, que o bairro é hipster :P

Ah, então meu bairro é o bairro da moda? É. Mas é da moda porque é hipster? Infelizmente sim. Me diz minha professora: sei que você gosta da sua área porque você é hipster, não é? Interrogo-me em silêncio: sou hipster. Sim e não - vai depender da definição que se faz de hipster.




A definição que cabe, e da qual origina o termo, é muito interessante e contra cultural. E tem sim ainda a cara da região onde moro. E várias metrópoles do mundo têm regiões assim. Ser hipster tem a ver com consumir menos, dedicar menos tempo da vida a estar dentro de um escritório. Tem a ver com comer em lugares próximos e que valorizam a produção local. Tem a ver com valorizar as coisas mais simples, olhar menos para o que é novo, reler o passado, relaxar um pouco com o visual, cultivar hábitos inclusive mais orgânicos, saudáveis e ao ar livre. Daí a barba grande. Daí os restaurantes fofos e simples. Daí a mania por livraria - é um resgate ao antigo. Daí os coques no cabelo - deixar crescer e prender com o calor (não é meu caso!). Daí vestir-se com roupas antigas, revisitar o armário dos pais, brechós, demonizar marcas banais... Enfim, é um estilo de vida que se encaixa nessa tendência de que menos pode ser mais.

A lógica do mercado - não é uma crítica, é só uma explicação - é assim: identifica-se um movimento, uma tendência. Apropria-se desta tendência e passa-se a vendê-la. Hipster vira uma roupa. Hipster vira uma linha de produto para barcas. Hipster vira o nome de empreendimentos imobiliários milionários no bairro onde eu moro (ArtPinheiros, Loft São Paulo...). Hipster vira uma escola de grafite, uma nova linha de bicicletas dobráveis, uma prateleira de orgânicos nos caros supermercados. E, é lógico, hipster passa a equivaler a preços exorbitantes. Porque hipster é moda. E é isso que acontece com a região em que vivo.




Não é exatamente o foco do roteiro, mas o filme Enquanto Somos Jovens (2014), de Noah Baumach, brilha ao explicar essa lógica. Um casal de meia idade está fascinado pelo estilo de vida de jovens de vinte e poucos anos. Estes jovens já se mostram na segunda onda da tendência hipster, consumindo por conjsumir este estilo de vida, gastando tubos de dinheiro com vinis, livros e fitas cassetes completamente desconectados do sentido daquilo. Estão adquirindo uma identidade. Eles consomem um estilo de vida que lhes foi vendido. E, como jovens, têm os desejos do casal de 40 projetas sobre eles. Os mais velhos passam a mimetizá-los. Na prática, é o que nos acontece: quando nos deparamos com lofts caríssimos nos bairros hipsters de nossas cidades, galerias de arte vendendo grafites a preços exorbitantes, a rede Urban Outfitters mapeando os souvernis mundiais que você poderia garimpar em suas viagens, é hora d acordar: roubaram um estilo de ida de um grupo, estão vendendo mais caro e muita gente que está pagando por isso sequer tem noção do que aquilo significa.




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