segunda-feira, 30 de novembro de 2015

FESTIM DEVASSO


Era um deboche enorme, era um festim devasso!
No palácio real brilhava a infame orgia
E até bebiam vinho os mármores do paço.

O champagne era a rodo, o deus era a Folia;
Entre o rumor febril soltava gargalhadas,
Pálido e embriagado, o herói da monarquia.

Riam-se os cortesãos pras taças empinadas,
E referviam sempre os ponches palacianos,
Nas mesas de ouro e prata, em Roma cinzeladas.

Era a repercussão dos bodos luculianos!
E os áulicos boçais e os parasitas nobres
Bebiam avidamente os vinhos de mil anos.

Desmaiavam na rua, à fome, os Jós, os pobres;
Em peles de leões os régios pés gozavam
E o norte nos salões gemia uns tristes dobres.

À louca, os convivas, com força, arremessavam
Garrafas de cristal a espelhos de Veneza
E à chuva, ao vento, ao frio, os povos soluçavam

Tremia vinolenta a velha realeza,
Caíam na alcatifa os duques e os criados
E, sujos, com fragor, rolavam sob a mesa.

A púrpura nadava em vinhos transbordados,
Cantava um cardeal não sei que chansonnette
E o espírito subia aos cérebros irados.

Era um tripúdio infrene o festival banquete!
O rei, bêbado, enfim, vazando o copo erguido,
Quis saudar e caiu, de bruços, no tapete.

E o sultão em regra em vinhos imergido,
Pisado pelo chão, rojou-se pra janela,
Como um lagarto imundo, estúpido e comprido.

A brisa dessa noite, hiberna noite bela,
Deu na fronte real uma fugaz lufada,
E o rei, agoniado, à luz de cada estrela,

Curvou-se e vomitou nas pedras da calçada.

CESÁRIO VERDE