sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Das faixas ao “push-up”, a evolução do soutien


 Tal como as espécies, os soutiens também evoluíram. Arrastados pela força da história e da moda chegaram ao que conhecemos hoje. Ou achamos que conhecemos.

 Publicidade à liberdade de movimentos de um cai-cai nos anos 50.Imagem cedida pela Dama de Copas

Por causa dos espartilhos, as mulheres tinham dificuldades em respirar, chegando a desmaiar e a fazer com que os órgãos trocassem de lugar. Hoje os corpetes continuam a vender-se mas “mais confortáveis” e não se aconselha a usá-los no dia-a-dia. “Há outras peças modeladoras”, diz Inês Basek, para quem o corpete não deixa de ser uma peça sexy, que pode ser inclusivamente “usada para uma festa, debaixo de um casaco, desde que não tenha aspeto de lingerie”.

 Mosaico do século IV encontrado em Villa del Casale, Roma

 Quando o assunto era um espartilho, dava sempre para apertar mais um bocadinho. 
Foto: Getty Images
 
Só em 1914 o soutien foi patenteado por uma socialite nova-iorquina que decidiu “partir o espartilho em duas partes”. Conta-se que Caresse Crosby decidiu ir mais cómoda a um baile para o qual tinha sido convidada e que quando as outras mulheres a viram dançar livremente, sem as amarras do espartilho, foram fazer-lhe encomendas. Como o material que Caresse usava era elástico, só havia um tamanho de soutien — o conforto ainda não tinha chegado ao peito de todas as mulheres.

Os espartilhos conheceram o seu fim, pelo menos tal como existiam até então, com a I Guerra Mundial. Com os homens na guerra, as mulheres tiveram de ir trabalhar para as fábricas e começaram a precisar de uma maior liberdade de movimentos. Estima-se que nesta fase só elas tenham produzido 28 mil toneladas de ferro, suficiente para fazer dois navios de guerra.

Já se quis esconder o peito, já se quis evidenciá-lo, já se quis tapar muito e pouco, tê-lo em forma bicuda e redonda, já se usaram espartilhos com muito sofrimento à mistura, já se voltaram a usar corpetes de livre e espontânea vontade. É caso para dizer que mudam-se os tempos, mudam-se os soutiens. Mas o que terá mudado, de facto? E haverá ainda espaço para evoluir?

Para fazer uma história do soutien é preciso regressar à Grécia Antiga. Na altura, muitas mulheres não o usavam — tendência que tem voltado entre as mais ousadas –, mas as que se queriam tapar usavam uma fita de lã à volta dos seios, que tinha por objetivo achatá-los e comprimi-los junto à caixa torácica. O método era muito semelhante do que se praticava no século III em Roma, onde as mulheres protegiam os seios com bandas durante a atividade física, numa espécie de método precursor dos soutiens desportivos que existem hoje. Segundo Inês Basek, uma das fundadores da loja Dama de Copas, inovadora na arte do bra fitting, “imobilizar o peito não é a melhor solução: o soutien tem um objetivo por cumprir que passa por sustentar o peito”.Rondava-se o ano 1500 quando apareceram os espartilhos, peça de vestuário mais semelhante a um elemento de tortura e que muitos defendiam representar uma restrição física e simbólica para as mulheres. A pressão era tanta que os corpos femininos assumiam a forma de ampulheta (a chamada “hourglass”, uma silhueta que tem sido treinada, atualmente, por celebridades como Kim Kardashian).


Autor
Carolina Santos
O Observador