terça-feira, 10 de novembro de 2015

CIDADE DO PORTO


(O Eugénio de Andrade espera-me num Café.
Atravesso as ruas do Porto – a cidade onde 
nasci – com os punhos cerrados de dor.)


Não nasci por acaso nestas pedras
mas para aprender dureza,
lume excedido,
coragem de mãos lúcidas.

Aqui no avesso da construção dos tempos
a palavra liberdade
é menos secreta.

Anda nos olhos da rua
pega lanças aos gestos,
tira punhais das lágrimas,
conclui as manhãs.

E  principalmente
não cheira a museu azedo
ou musgo embalado
pela chuva da boca dos mortos.

Começa nos cabelos das crianças
para me sentir mais nascido nestas pedras.

Porto
 – cidade de luz de granito.

Tristeza de luz viril
com punhos de grito.



josé gomes ferreira
daqui houve nome portugal
antologia de verso e prosa sobre o porto
organizada e prefaciada por eugénio de andrade
editorial inova
1968