terça-feira, 24 de novembro de 2015

Carta à paixão


Destinatária: Àquela que não pede licença.



Querida,

Quanto tempo nós não nos falávamos! É bom perceber que ainda temos assunto...sempre que nos encontramos parece que não nos víamos há poucos dias, né? Essa intimidade que construímos ao longo dos anos é rara, ainda te reconheço em cada detalhe, como antigamente.

Estás linda! Não mudastes nada, talvez mais madura, realista mas, a essência continua a mesma, saracoteando moleca em todo canto como sempre. Dando susto e enchendo a casa de flor. Mas, mesmo com saudades preciso confessar algumas coisas e escrevo por que tu sabes bem que algumas coisas só saem de mim por escrito...e, normalmente, se tratando de ti é a única forma plausível.

Confesso que não estás me deixando confortável nesta última visita. Me sinto descontrolada. É isso! Descontrole é a palavra. Algo como uma respiração trancada por segundos longos demais. Ofegante, agoniada. Um descontrole latente, pulsante e morno que aquece meu corpo...mas é quente demais. Numa temperatura onde queima a pele e ferve os nervos, o sangue e os pensamentos. Perco o controle, o equilíbrio, o bom senso. Me perco.

Faço de uma forma onde não fiques constrangida mas, silenciosamente, aperto cada sintoma agonizante da tua companhia, numa tentativa vã de deixá-la tão pequena a ponto de ser imperceptível...a ponto de sumir por si. Implodir. Desaparecer daqui. Mas, tu gritas como uma criança faminta, que busca com anseio o único leite que saciará sua fome. Uma fome emocional. Uma fome vazia de um alimento inventado. Inventado sim! Por que tens o péssimo hábito de inventar as coisas. Inventar que faz sentido, que combina, que encanta...inventa até razões para que essa cara de boba se instale de uma vez por todas e me deixe constrangida em público.

Não compreendo a valorização demasiada que as pessoas te dão, os escritores, novelistas, músicos...te idolatram! Não que não sejas especial e encantadora. És! Mas é muito bafafá na tua volta entende? Te convidam a todo instante pra visitá-los com freqüência pra que o peito invente de fazer arte. Eu acho que tu deveria ir... Eu acho heim!? Vá querida, vá de uma vez! Tu descontrola todo meu equipamento cardíaco e não estou disposta a buscar ajuda médica agora nessa fase tão corrida da minha vida. Na verdade não compreendo o que trazes além de agonia e inspiração... Ok, ao menos trás a inspiração. Mas na próxima vez podes trazer a inspiração e deixar esse sufoco na casa de quem goste de recebê-lo, pois eu não gosto.

Racionalizar o coração tem sido meu exercício diário com essa tua visita imprevisível. Racionalizar o que não passa pela mente, o que me toma como marionete e embala meu corpo numa dança que faz dos meus planos mais sérios frágeis bolhas de sabão. Brincas de ser agulha e sai estourando uma a uma...brincas de ser presente mesmo quando me faço de ausência. Eu estava tranquila até chegares espaçosamente, deitar no meu colo pedindo conselhos, como se eu já fosse consciente o suficiente para te responder de uma forma digna. Não sou. Não sei o que dizer pra ti que me questiona incansavelmente, que me rouba os olhos desde meu primeiro encanto. Me rouba descaradamente a atenção e os devaneios pré-sono nessa forma louca de me por a mercê desse tumulto que és.

Paixão, por favor, volte mais tarde. Não estou com a casa pronta pra recebê-la e por favor, avise quando estiver vindo, pra que eu possa encaixar tua presença na minha vida. Eu te respeito, não quero cortar os laços, cultivo a esperança de reatarmos nosso contato qualquer dia, mas sinceramente não tenho vontade de dividir minha vida contigo, agora. Tu me causa ansiedade, bobice e uma vontade incontrolável de ver e rever filmes água com açúcar. Que coisa inconveniente!

Pratico repetidamente o dom de interpretar desde que ressurgistes na minha rotina. Mas não consigo ser tão boa a ponto de convencer a mim mesma que não mexes comigo... Cansei! Vou te passar o endereço de alguns amigos super legais que adorariam recebê-la agora no inverno! Nós combinamos umas férias tuas aqui em casa daqui a um ano pode ser? Conversamos por e-mail e acertamos os detalhes.

No mais, obrigada pela visita e desculpe a sinceridade. Sei que tua intenção era boa, mas tens que aprender de uma vez por todas a pedir licença. Levei um susto quando abri a porta e te vi instalada ali novamente, tomando conta de todo canto meu sem a menor cerimônia... Assim, sinceramente, não dá.

Até breve, e que o breve esteja longe... Mas nem tanto.

Salinê Saunders

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