segunda-feira, 16 de novembro de 2015

BASICOPRATICAMENTE

 António Lobo Antunes

Lembro-me de um primo meu, pequeno, dizer
- Se a mãe sesse o pai puzia gravata
lembro-me da Isabel, quando a levei a uma exposição de pintura e lhe perguntei o que achava, me responder
- É um bocado aborrecente
lembro-me do Pedro, zangado com o João, bater à porta do quarto do banho a fazer queixa, do pai a exclamar
- Ah
e do Pedro para o João, vingado
- Estás a ver, o pai disse Ah
e acho que se fossemos mais assim a nossa vida melhorava.


Muito mais do que escutar um ministro referir-se às "ciclópicas tarefas que nos pendem sobre os ombros", e eu a ver as ciclópicas tarefas a escorregarem pelas mangas abaixo, ou do professor de Obstetrícia que declarava
- O que caracteriza esta doença é ser caracterizada pelas seguintes características.
Se dependesse de mim puzia o meu primo a dar aulas, arranjava um ministro menos aborrecente e escolhia um professor de Obstetrícia capaz de resumir a lição num
- Ah eloquente.
Lembro-me de um cabo, em Angola, que respondeu
- Básicopraticamente
quando lhe perguntei se ele achava que tinha razão, e espanta-me que os políticos não respondam isso ao interrogarem-nos se pensam que as suas opções são correctas, e as eleições não sejam marcadas para o dia trinta e dois que era a data em que um sipaio queria casar-se. Básicopraticamente tinha razão: que dia existe melhor que o trinta e dois para uma cerimónia dessas? O que não se pouparia no médico se tomassem todas as manhãs uma aspirina, como o meu amigo senhor Vicente que, ao interessar-me pelas vantagens de tanta pastilha, me esclareceu, firme:
- Pelo sim pelo não
o mesmo que me apareceu com uma coceira qualquer e que, ao comentar-lhe que devia ser chato estar sempre a torturar a pele com as unhas me informou
- É chato na medida em que se torna aborrecido