domingo, 8 de novembro de 2015

À SAÍDA DE UM BAILE




A primeira vez que a vira fora de noite,à saída de um baile. Já a conhecia,sim,mas nunca a vira. Tudo era medíocre, como sempre,naquele baile,com as mães e as tias sentadas a toda a volta da sala,na segunda fila de cadeiras,as filhas na primeira,os rapazes às portas, prontos para o assalto mal a orquestra recomeçasse,as mães vigiando,as tias vigiando,impedindo ou estimulando os namoros possíveis,os casamentos prováveis. Ó objectivo dos rapazes não era propriamente o mesmo. Mas tinham de aceitar as regras do jogo se queriam chegar a tempo às peças mais cobiçadas,sobretudo nos tangos,dançados à média luz,quando a sala ficava repleta e toda a vigilância se tornava praticamente inviável. No meio daquela gente alegremente entregue a esse jogo dissimulado de oferta e de procura,Augusto surpreendera,de súbito, o sorriso de Matilde,como quem estivesse a olhar por um binóculo uma paisagem sem interesse e descobrisse um pormenor inesperado com uma nitidez fascinante.Em volta,tudo continuava desfocado,os lustres, as cadeiras,as pessoas que mal conhecia e que eram a mãe de Matilde,as amigas de Matilde,as mães das amigas de Matilde. Dançaram uma vez quase no fim da noite. E falaram . De quê? Não interessa de quê. Só o tom,a descoberta,o alvoroço interior,interessavam. E desceram a escada juntos,um pouco atrás de Ana Soeiro e das amigas que nessa altura só estavam realmente preocupadas com arranjar um táxi. Atrás de Ana Soeiro e das amigas,degrau a degrau,demorando a separação. Atrás de qualquer coisa que nascia.
Era já madrugada. Os candeeiros apagavam-se nesse instante e do cimo dos prédios caiam molemente os primeiros bafos duma claridade ainda baça. As senhoras mandavam parar taxis, despediam-se. E a luz indecisa prendia-se nos cabelos,nos olhos, e no sorriso de Matilde. Tinha um lenço azulado ou esverdeado, transparente,em volta dos cabelos que se despenteavam à aragem da manha próxima. Viu-a entrar no carro sem lhe dizer mais nada. E guardou para sempre, emoldurada pela janela da vidraça descida,esses cabelos que fugiam do lenço transparente,esses olhos na sombra, esse sorriso.

Mário Dionísio,O Corte das Raízes, O Dia Cinzento e Outros Contos