domingo, 1 de novembro de 2015

A GÉNESE DE UM POVO


Bolos Lêvedos



A refeição chegou muito tempo depois, fumegante, num alguidar de barro de cujo interior provinham diferentes odores a infância e a flores. A sua chegada, a sala inteira pareceu aquecer-se. Como em criança, José Artur pegou numa fatia do pão doce cortado à sua frente e colocou-a no fundo do prato, derramando sobre ela sucessivas conchas do caldo em que a carne mergulhava. Depois ergueu gravemente um dos pedaços dessa carne e passou-o para o prato também.

Levou o garfo à boca e fechou os olhos, a manteiga e o cravo-da-índia e o toucinho de fumo diluindo-se e recombinando-se numa afluência de sabores que se metamorfoseava. Ganhavam, perdiam e recuperavam cambiantes, à medida que entravam em acção novos ingredientes ainda, o vinho e a pimenta da Jamaica e a cebola e a banha de porco e de novo a carne, magnífica, derretendo-se-lhe na boca e fundindo-se com ela, como se ele tivesse, finalmente, atingido terra firme.

Comeu até ao fim, numa voragem antiga, e depois pegou nos últimos pedacinhos do pão doce e pôs-se a ensopar o resto do molho, comendo-os também.

«Massa sovada», lembrou-se. «Massa sovada!» Sabia-lhe a terramotos e a redenção.

Chegou-se para trás. «Seja como for», pensou, «se um dia houve uma civilização superior, anterior a tudo, precursora e perfeita, bem pode ter sido aqui.» Naquela carne e naquele pão se concentrava tudo o que podia destruir um povo e permitir-lhe viver novamente.

Joel Neto, in 'Arquipélago'

(Excerto sobre os Açores)