sábado, 7 de novembro de 2015

A FILÓSOFA HANNAH ARENDT


Revista Filosofia


Hannah Arendt não gostava muito de ser tratada como filósofa, preferindo a denominação de cientista política. Da mesma forma, costumava referir-se a seus textos como "de teoria" ou simplesmente "escritos", não lhe satisfazendo igualmente a classificação de "filosofia política". Em virtude de suas abalizadas análises políticas, ela recebeu importantes distinções como o Prêmio Lessing de 1959 e o Sonning de 1975, este concedido pela Universidade de Copenhague, uma tradicional instituição de ensino dinamarquesa fundada em 1479. Arendt foi agraciada em reconhecimento ao seu mérito em favor do desenvolvimento da cultura europeia.

Entre os ganhadores do Prêmio Sonning, concedido a cada dois anos, figuram os nomes da filósofa húngara Ágnes Heller, do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, do cineasta sueco Ingmar Bergman, do dramaturgo italiano Dario Fo e da filósofa, teórica do feminismo e escritora francesa Simone de Beauvoir.

O pluralismo político era um dos conceitos básicos pregados por Hannah Arendt, na vigência do qual a igualdade política e a liberdade se manifestariam naturalmente entre as pessoas, com tolerância e respeito às diferenças, numa perspectiva de inclusão. Agentes com disposição e capacidade específica devem ter atuação prática em leis, convênios e acordos de natureza política. Em consequência desse tipo de ideia, ela privilegiava a democracia direta ou um sistema de conselhos em detrimento de formas de democracia representativa, em relação às quais adotava uma postura claramente crítica.

Algumas Ideias de Hannah Arendt (trechos selecionados)

"A esperança que inspirou Marx e os melhores homens dos dive rsos movimentos operários - a esperança de que o tempo livre eventualme nte em ncipará os homens da necesidade (...) - repousa sobre a ilusão de uma filosofia meca nicista que assume que a força despendida no trabalho, como qualquer outra, nunca se perde, de modo que, se ela não for gasta e exaurida no trabalho duro de ganhar a vida , ela automaticamente alimentará outras e 'mais elevadas ' atividades . O modelo que guiou a esperança de Marx quanto a isso foi sem dúvida a Atenas de Péricles, a qual, no futuro, com a ajuda do enorme aumento da produtividade do trabalho humano, não mais precisaria de escravos para se sustentar e, assim, poderia tornar-se real idade para todos. Cem anos depois de Marx, sabemos da falácia do seu raciocínio; o tempo livre do animal laborans (animal trabalhador) nunca é gasto em nada a não ser no consumo e, quanto mais tempo ele adquire, mais gananciosos e vorazes se tornam seus apetites ."
(De A condição humana, Forense Universitária)


Apesar de, ao longo de sua vida, ter sido avessa ao rótulo de "filósofa", Arendt segue sendo estudada como filósofa influente, em decorrência também de suas discussões críticas de pensadores clássicos da Filosofia, tais como Platão, Aristóteles, Sócrates e Santo Agostinho, sem falar em importantes representantes da filosofia moderna, como Immanuel Kant, a Martin Eidegger*, Nicolau Maquiavel, Charles de Montesquieu e Karl Jaspers. Foi precisamente devido a sua independência de pensamento, seus estudos no campo da filosofia existencial, sua abrangente teoria sobre o surgimento do totalitarismo e sua decidida atuação em favor da liberdade no âmbito da discussão política, que Arendt assegurou a posição central que ocupa nos debates contemporâneos.

Quem foi Hannah Arendt

Nascida em Hannover, na Alemanha, em 14 de outubro de 1906, de origem judaica, foi batizada como Johanna Arendt. Tendo perdido o pai com sete anos incompletos, mostrou-se precoce ao tentar consolar sua mãe, Martha Arendt: "Pense - isso acontece com muitas mulheres", teria dito a menina, para espanto da viúva. Recebeu da mãe, que tinha simpatia por ideias da social-democracia, uma educação marcadamente liberal. Ainda na adolescência, teve contato com a obra de Kant. Aos dezessete anos, abandonou a escola por questões disciplinares. Transferiu-se para Berlim, onde estudou teologia e a filosofia do dinamarquês Soren Kierkegaard. 

Em 1924, passou a frequentar a universidade de Marburg. Ali permaneceu um ano, durante o qual assistiu aulas de Filosofia com Martin Heidegger - com quem manteve, em seguida, um relacionamento amoroso complicado - e Nicolai Hartmann; teologia protestante com Rudolf Bultmann; e grego. Arendt formou-se em Filosofia em Heidelberg.

Em 1929, época da recessão mundial provocada pela quebra da Bolsa de Nova York, Arendt mudou-se para Berlim, com uma bolsa de estudos. Com a ascensão do nazismo ao poder, em 1933, ela foi para a capital francesa, onde conheceu grandes intelectuais, a exemplo do filósofo e escritor Walter Benjamin. Na ocasião, trabalhou como secretária da baronesa Rotschild, de uma tradicional família de banqueiros.
Na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando o governo da França cooperou com os invasores alemães, a judia Hannah foi mandada a um campo de concentração, como "estrangeira suspeita". Todavia, conseguiu fugir para Nova York, onde chegou em 1941.
Exilada e apátrida (perdeu a nacionalidade alemã), permaneceu dez anos sem direitos políticos, obtendo a cidadania estadunidense em 1951. Nos Estados Unidos, Hannah trabalhou em várias organizações judaicas e editoras, como a Schoken Books, tendo escrito também para o periódico Weekly Aufba. Naquele país, ela desenvolveu efetivamente sua carreira acadêmica, contratada em 1963 pela Universidade de Chicago. No ano seguinte, entraria para a American Academy of Arts and Letters. Em Chicago, Arendt foi professora até 1967, quando se transferiu para Nova York, dando aulas na New School of Social Research. Faleceu em 4 de dezembro de 1975.


     

Martin Heidegger (1889-1976), filósofo alemão. Vocacionado para o sacerdócio, estudou em seminário antes de matricularse na universidade de Freiburg, onde lecionou a partir de 1928. Em 1933, com a ascensão do nazismo, filiou-se ao partido de Hitler, assumindo o cargo de reitor, do qual se demitiu por discordar da perseguição aos professores judeus. Sua obra completa foi editada em 70 volumes, dos quais Ser e tempo (1927) celebrizou-o, lançando as bases de sua filosofia existencial.