quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Sophia de Mello Breyner Andresen - o navegar poético



Sophia de Mello Breyner Andresen - foto: (...)


Os ritmos
Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.
- Sophia de Mello Breyner Andresen, em "Coral", 1950.


Sophia de Mello Breyner nasce a 6 de novembro 1919 no Porto. A sua infância e adolescência passaram-se entre o Porto e Lisboa, onde frequentou o curso de Filologia Clássica. Após o casamento com o advogado Francisco de Sousa Tavares, fixa-se em Lisboa, passando a dividir a sua actividade entre a poesia e a intervenção cívica contra a ditadura de Salazar, que então dominava o país. As duas actividades não são, no entanto, separáveis: se, por um lado, foi candidata pela Oposição Democrática nas eleições legislativas de 1969, sócia fundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos e, após a Revolução de Abril de 1974, deputada à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista, a poesia ergue-se também como uma voz da liberdade, especialmente em O Livro Sexto.
Contemporânea de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Alexandre O’Neill, Tomaz Kim, José Blanc de Portugal, Ruy Cinatti, António Ramos Rosa, David Mourão-Ferreira, fez parte da geração de Cadernos de Poesia (1940-42) e colaborou também na Távola Redonda (1950-54) e na Árvore (1951-53), o que a identifica com uma prática poética que afirma um ideal de modernidade, mas que nessa afirmação valoriza acima de tudo a busca do mistério poético, aí, e só aí, se inscrevendo um sistemático trabalho de depuração formal. Sophia é um dos expoentes de uma poesia onde o culto das técnicas de expressão só em função daquela busca e sua simultânea celebração ganha sentido, nunca enquanto mera representação do real como acontecera com a geração precedente que deu corpo ao ideal neo-realista, nem como mero jogo de intuições poéticas imediatas, como o foi em grande parte a poesia surrealista que igualmente se afirmou por esses anos. Nesse sentido, esta é, no seu equilíbrio de conceitos e procedimentos, uma poesia naturalmente humana e por isso clássica no seu modo de ser moderna.


Sophia fotografada por Fernando Lemos, no jardim da casa
da Travessa das Mónicas, anos 50

Profundamente mediterrânica na sua tonalidade, a linguagem poética de Sophia de Mello Breyner denota uma sólida cultura clássica, onde se inscreve a sua paixão pela cultura grega como referente quase sempre presente e onde a relação do signo com o mundo circundante é uma relação de transparência e luminosidade. O ritmo, a construção melódica é expressão desse equilíbrio como o é da tensão — que por isso deixa de o ser — entre a vocação pura, emocional, e o seu modo reflectido, contido, de se escrever. A inspiração poética confunde-se, por outro lado, em Sophia, com o registo e o canto das coisas lisas e essenciais, um registo de imanência, e isso lhe confere uma espécie de magia. Luz, verticalidade e magia estão, aliás, quase sempre presentes na obra de Sophia: quer na obra poética, quer na importante obra para crianças que, inicialmente destinada aos seus cinco filhos, rapidamente se transformou num clássico da literatura infantil em Portugal, marcando sucessivas gerações de jovens leitores com títulos como O Rapaz de Bronze, A Fada Oriana ou A Menina do Mar.
Sophia é ainda tradutora para português de Anunciação a Maria, de Claudel, "Purgatório” da Commedia de Dante (com prefácio do Prof. Vieira de Almeida), Hamlet e Muito Barulho por Nada, de Shakespeare, Medeia, de Eurípedes, e Ser Feliz e Um Amigo, de Leit Kristianson; e traduziu para francês poemas de Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa.
Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu a 2 de julho de 2004, em Lisboa, e o seu corpo foi trasladado para o Panteão Nacional precisamente a 2 de julho de 2014, 10 anos após o seu falecimento.
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Fonte: CDAP - Casa Fernando Pessoa e Porto Editora


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