quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O USO DO TELEMÓVEL

Usar um telemóvel tornou-se um acto irreflectido, quase automático. Porém, a sua utilização pode comportar riscos não negligenciáveis para a saúde. Para quem precisa mesmo deles, encontre aqui formas de se proteger da radiação que emitem.
Usar um telemóvel tornou-se num acto perfeitamente banal para a maioria dos portugueses. Portugal é dos países do mundo com maior taxa de penetração do serviço móvel terrestre, tendo atingindo, no final do segundo trimestre de 2002, cerca de 78% (contra uma média de 76% para a União Europeia). O crescimento tem sido muito rápido, sobretudo desde o aparecimento do Sistema Global para Comunicações Móveis (entre nós mais conhecido por “GMS”) – em 1998 aquela taxa não ultrapassava os 32%.

Contudo, por trás do gesto imediato e irreflectido de pegar num telemóvel para fazer uma chamada, escondem-se riscos que são desconhecidos pela maioria dos utilizadores. Até que ponto a generalização dos telefones celulares respeita o já consagrado (embora pouco aplicado) princípio da precaução?

Os princípios físicos

Falar de telemóveis e dos riscos associados sem falar, ainda que de forma geral, sobre os princípios físicos que lhe estão subjacentes, seria um tanto redutor. Por isso será feita uma breve explicação sobre o modo como funcionam.

Para comunicar, a informação é enviada através de ondas electromagnéticas. Estas ondas propagam-se no espaço tal como as pequenas ondinhas se propagam pela água quando lhe atiramos com uma pedra. A diferença é que, em vez de falarmos em água e na sua altura (as ondas sobem e descem), falamos em intensidade de campos eléctrico e magnético. A ondulação pode ser muito rápida ou mais lenta. A esta propriedade chama-se frequência. A luz solar, por exemplo, é composta por um largo espectro de radiação electromagnética. Da interacção da luz com os objectos cria-se o efeito da cor, que mais não é do que radiação electromagnética de uma determinada frequência e comprimento de onda. O sistema GSM funciona nas frequências de 900 e 1800 MHz, o que significa que há 900 000 000 ou 1800 000 000 ciclos “ondulatórios” por segundo, a que correspondem comprimentos de onda (a distância entre duas cristas) de cerca de 30 e 15 cm, respectivamente. O comprimento de onda da luz visível é cerca de 1000 000 menor, situando-se entre os 400 e os 700 nm.

A radiação que é usada nos telemóveis encontra-se na banda das microondas e não possui energia suficiente para provocar a ionização de átomos (ou seja, não os consegue modificar), ao contrário do que acontece com os raios ultravioleta, dos raios X e de outros. Por este motivo é denominada “radiação não-ionizante”. Contudo, tal não significa que esteja isenta de riscos.
No sistema GSM, a informação acústica é modulada no telemóvel de forma digital e transmitida por radiação electromagnética para a antena mais próxima. Esta, por sua vez, transmite a informação a frequências superiores e potência e intensidades muito inferiores para a antena mais próxima do telemóvel do destinatário. Actualmente praticamente todo o território nacional está coberto de antenas, cada uma das quais cobre um raio de 35 km à sua volta. A este espaço dá-se o nome de “célula”, e daí o nome “telefone celular” que também é usado. Em zonas urbanas, porém, dado o elevado número de utilizadores (cada célula só comporta um número limitado de chamadas simultâneas), são normalmente instaladas antenas de menor potência cobrindo uma área territorial mais exígua. Locais como centros comerciais e aeroportos, por exemplo, podem mesmo ter as suas antenas dedicadas.

Os telemóveis modernos adaptam continuamente a potência transmitida à mínima necessária para que a estação mais próxima receba um bom sinal. Por outro lado, os telemóveis ficam temporariamente “desligados” quando o utilizador não está a falar. Por causa destas e de outras tecnologias, os níveis de radiação a que se está exposto são em média muito inferiores aos picos de potência que podem ser emitidos. Mas se o nível de cobertura de rede no local for reduzido (o que pode ser facilmente verificável no visor do telemóvel), a energia transmitida pode atingir aquele valor máximo e mais perigoso.


Riscos para a saúde

Há dois tipos de riscos directos para a saúde implicados no uso de telemóveis: efeitos térmicos resultantes do aquecimento dos tecidos próximos do aparelho e efeitos não-térmicos resultantes tanto dos telefones como das antenas. Existem ainda riscos indirectos relacionados, entre outros, com o uso de telemóveis ao volante, com o impacto ambiental das antenas localizadas perto de casas, escolas ou outros edifícios, e ainda com o receio em incorrer em efeitos directos.

A exposição à radiação dá-se principalmente nas zonas do corpo próximas do telemóvel, normalmente a cabeça. A exposição devido às antenas incide sobre todo o corpo mas a sua intensidade é muito inferior à proveniente dos aparelhos. Ao contrário do que se pensa, a radiação emitida pelas antenas tem orientação descendente mas num ângulo de cerca de 6º, de tal forma que, para uma antena a 15 m de altura, a radiação só atinge o solo a cerca de 50 m de distância da sua base. Ou seja, a exposição é menor para quem está directamente por baixo da antena. Tal deve ser tido em causa aquando da instalação de antenas na proximidade de escolas, hospitais, etc.

São comummente relatadas enxaquecas, insónias, diminuição temporária da memória de curto-prazo, hemorragias nasais e maior frequência e intensidades nos ataques em epilépticos. Não há, contudo, muita investigação sobre estes efeitos, o que várias organizações consideram dever-se à pressão das empresas de telemóveis e das operadoras sobre os organismos reguladores e centros de investigação. Há também provas que sugerem um aumento do número de casos de linfomas e de leucemias em certas pessoas (eventualmente mais sensíveis).

As crianças, por que estão em crescimento e o seu sistema nervoso se encontra ainda em desenvolvimento, são especialmente sensíveis às radiações. Estas penetram mais facilmente pelo seu crânio, pois é de menor espessura, e afectam de forma mais significativa o seu sistema imunitário.


As doses máximas de radiação previstas na legislação têm como base o cálculo de velocidades específicas de absorção por parte dos tecidos. No entanto, estes cálculos são extremamente complexos e muito pouco fiáveis devido à sua enorme variabilidade. Por este motivo, não é possível assegurar que os níveis guia actualmente em vigor são suficientes para proteger a saúde dos utilizadores.