sábado, 31 de outubro de 2015

O MUNDO DOS SOLTEIROS





Agora a sério: você conhece algum solteiro verdadeiramente satisfeito com a sua condição de solteiro? Eu não. Conheço vários solteiros que se dizem satisfeitos com a sua condição de solteiros, mas que de bom grado imediatamente se casariam. Não se casam por inércia, por cobardia, muitas vezes por falta de sorte - mas é por uma vida a dois que suspiram. É da natureza humana. Uma coisa é estar entre casamentos. Outra é ser solteiro. E o solteiro cool é uma construção tão artificial como o da gordinha «muito» simpática. Você conhece alguma gordinha «muito» simpática em que essa tão óbvia simpatia não seja excessiva, provavelmente fabricada - e mensageira sobretudo de uma profunda solidão? Eu não.

(...) É um mundo sombrio, o mundo dos solteiros - um mundo de ansiedades, de cinismo, de ressentimento, de egoísmo. Se os solteiros solitários são tristes, aliás, os solteiros gregários são-no ainda mais. Você já foi a algum jantar em que os presentes fossem maioritariamente solteiros? Eu já. E, sempre que fui, voltei deprimido. Ia deprimido - e deprimido voltei. Íamos deprimidos - e deprimidos voltámos. Todos. Fizemos o que pudemos, claro: trocámos palavras, trocámos solidariedades, trocámos mimos. No fim, nada. Sobraram os assuntos, escasseou a intimidade. Fôramos ali à procura do outro na mesma situação que nós – mas, por mais que olhássemos, não conseguíamos vê-lo. Cada um de nós usou pelo menos duzentas e cinquenta vezes a palavra «eu» - e duzentas e cinquenta vezes se sentiu culpado por isso.

Virou uma coisa militar: um chorrilho de protestos contra o casamento, a família, o aburguesamento, a guerra no Iraque, o Samuel Huntington, o conforto em geral. Em breve começámos a sentir saudades de outro lugar, como dantes sentíramos saudades daquele. Acabámos todos a olhar para o telemóvel, como se alguém efectivamente fosse telefonar. Talvez nos tenha faltado a «relações públicas» capaz de gerar «a interacção» - e que, nas peças de Gil Vicente, haveria de chamar-se outra coisa que não «relações públicas». Mas não acredito. Basicamente, estávamos no La Moneda, bebíamos vodca, discutíamos Lars Von Trier e Emir Kusturica, tínhamos dinheiro no bolso – e, porém, não nos dirigíamos a lado algum.

(...) Queridos, cresçamos e multipliquemo-nos. Ainda há esperança para nós. Não tenham dúvidas: antes mal casado do que bem solteiro. Podemos voltar para casa e pormo-nos um a jogar PlayStatione o outro a ler a Nova Gente - ao menos há o calor humano. A companhia anda muito subvalorizada, nos dias de hoje. Ternura parece palavrão - e ternura, posso garantir-vos, não é palavrão.

Joel Neto, in 'Banda Sonora para um Regresso a Casa'