segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O BEIJO



De imediato, basorexia é um termo que me lembra de uma palavra que eu ouvia vez por outra nos meus tempos de infância em Madrid, onde nasci. “Basura”, que simplesmente em espanhol significa lixo. Vamos combinar que a princípio, ao menos, basorexia não sugere nenhum detrito, nada fétido ou escatológico por exagero. Pois estamos falando do desejo, da compulsão mesmo irrefreável de beijar. Beijar muito. Beijar enlouquecidamente. Beijar sem parar.
Antes de tudo, vamos decifrar a foto acima cuja fama atravessa os tempos. Publicada na revista americana “Life”, foi tirada por Alfred Eisenstaedt em 14 de agosto de 1945 na Times Square, em Nova York. A imagem mostra um marinheiro beijando uma enfermeira em comemoração ao término da Segunda Guerra Mundial.
Voltando à nossa conversa, agora de mãos dadas com uma curiosidade minha: alguém dentre vocês sofre desta deliciosa mania — que embora possa assumir tons neblinados, plúmbeos até, se quisermos ser mais graves, de uma doença — pela falta de conveniência, de savoir faire talvez, como sugeririam os franceses, é inegavelmente irresistível.
Primeiramente, ressaltemos, visando inclusive à prospecção de controvérsias, que o beijo hoje — aquele caprichado, malemolente, coleante e succional, feito aderência de caracol grudado em vidro, ósculo explícito como os do peixe beijador, abrindo e fechando no aquário sua despudorada e rósea boquinha — anda um tanto mofado, abandonado, esquecido nas bocas viçosas. Anda ensimesmado e amarrotado, o pobrezinho do beijo.
A sofreguidão dos fisiológicos, lânguidos e entorpecidos conluios nas décadas e séculos passados, observados nas artes em geral, caiu de certa forma em desuso.
Hoje quase ninguém quer perder tempo, nem com os apetitosos e, a meu ver, insubstituíveis acepipes, hors d’oeuvres do namoro. Os finalmentes sexuais traduzem melhor a azáfama atual. A vida em sua féerie digital é como uma cômoda, compartimentada com um sem número de gavetinhas, cada qual destinada a conter tarefas do cotidiano que, espera-se, assuma desempenho sincronizado.
Em breve retrospectiva, ilustraremos a seguir beijos antológicos, protagonistas do mundo das artes. Aqui divisamos o primeiro beijo no cinema. Enfrentando o pudor da época, o primeiro beijo nas telas deu-se em 1896 e deixou o público boquiaberto, com as trocas de carícias entre os atores May Irwin e John C. Rice no filme “O Beijo”. Em obras clássicas, acenamos com os arrebatadores beijos entre Clark Gable e Vivien Leigh, em “E o Vento Levou”, em 1939. E os romanescos de Cary Grant e Deborah Kerr em “Tarde Demais Para Esquecer”, de 1957.



Viajando à renascença, lembramos que na Inglaterra o povo já mostrava sua predileção por beijocas que aconteciam a torto e a direito. Quem por exemplo visitava um amigo deveria, em sinal de respeito, beijar o anfitrião, sua esposa, filhos e até os bichos de estimação. Todos, sem exceção, na boca. Entretanto no século 15, o Rei Henrique VI, com o objetivo de sustar a proliferação de doenças, proibiu o beijo entre os ingleses. Um pouco depois, no século 17, Oliver Cromwell vetou beijos aos domingos. Algum atrevido que ousasse burlar a lei expunha-se de imediato à prisão.
Revista Bula