domingo, 4 de outubro de 2015

O ARRUMADOR



Bad Girl, em 07.09.15


Hoje conheci um arrumador. Não era só um arrumador, era certamente o arrumador mais educado que alguma vez conheci. Normalmente não troco palavras com arrumadores. Finjo que é normal dar-lhes uma moeda e que não sei para o que é. Também faço de conta que é um serviço absolutamente normal, e que não pago para evitar que me risquem o carro. Acordo tácito. Ficamos assim. Hoje, por alguma razão, enquanto MQT encostava o carro, e após eu sair, fiquei à conversa, mais ou menos, com o arrumador. A vida da droga, ou a droga da vida tirou-lhe tudo. Tirou-lhe o brio, tirou-lhe dentes, tirou-lhe esmalte dos que ficaram. Tirou-lhe a postura, as costas direitas, tirou-lhe peso. Mas não lhe tirou as maneiras. Deu-lhe rugas, uma cara flácida, um cheiro demovedor, uma cor de muitos sois, roupa suja. Mas não lhe deu animalidade. O coração ficou-me apertadinho. Senti-me quase com lágrimas nos olhos, a pensar quem estaria ali, por baixo de todo aquele estrago. Não sou destas coisas, não sou boazinha, não sou de me emocionar com arrumadores alheios. Não foi o arrumador que me emocionou. Foi o homem. Foram a eloquência, as maneiras e o tacto. Foi o homem que estava atrás de tudo aquilo, num passado talvez já muito distante. Foi o que podia ter sido. Foi o pensamento daquele momento em que a vida se começou a desmoronar à frente dele e ele optou por abrir mão de tudo. Menos da sua essência. E sei que não posso fazer nada. Imagino que outros já tentaram fazer, aproveitando um ou outro momento de lucidez. E que aquele homem, educadamente, disse a esses e à vida que não. E é triste, como é sempre, mas há uma luz que ainda teima em brilhar ali. Não sei se está todos os dias, não sei quantos dias estará, mas hoje estava em frente à Casa D' Oro.