terça-feira, 13 de outubro de 2015

MULHER ANDRÓGINA



O banquete, de Platão, fala sobre criaturas que possuíam quatro 
pernas, quatro braços, duas cabeças com faces opostas e os dois sexos. Elas eram chamadas de Andróginos. Estes seres, por terem poder e força sobre-humanos, se tornaram muito orgulhosos e decidiram iniciar uma escalada ao céu. Zeus, irritado com tamanha ousadia, decidiu cortar as criaturas ao meio, condenando uma metade a buscar a outra (Platão, 1991).
Atualmente, a expressão “mulher andrógina” é usada para designar a mulher moderna, que deseja se casar e ter filhos, mas não se importa por ser responsável pelas finanças da casa e ocupar cargos de liderança, atitudes consideradas masculinas há poucos anos.
O termo não deve remeter a uma mulher que apresente um comportamento sexual ambíguo, mas sim, que tenha características antes mais comuns ao sexo oposto. Está em jogo, então, a mudança de papel social entre homens e mulheres, que causou uma diminuição de diferença entre os gêneros.
No início do século XIX, por exemplo, as mulheres que se casavam depois dos trinta anos eram vistas com certo preconceito.  Além disso, muitas profissões não eram abertas para elas. Sendo assim, como sobreviveria uma mulher solteira, depois que seu pai e irmãos não estivessem mais vivos? Sobravam-lhes as atividades desvalorizadas e mal vistas.
Mesmo que incomum, em meio a esta situação, era possível encontrar alguns grupos de manifestantes femininas, que se valiam de toda sua força para protestar contra sua situação nas diversas esferas sociais (Calil, 2007).


Atualmente, o que antes era considerado um ato de rebeldia e revolta, passou a ser uma atitude comum e até mesmo esperada. Exigir melhores condições de trabalho e papéis sociais semelhantes aos dos homens não é mais atitude de uma minoria, mas sim de grande parte das mulheres.
No campo profissional, essas características permitiram que as mulheres passassem a ocupar cargos de liderança, uma vez que deixaram de ser vistas como “sexo frágil” ou “Amélia”, e puderam mostrar sua capacidade profissional, sem, no entanto, perder sua feminilidade.
Além da vida profissional, outra área em que a mudança de papel social foi bastante evidente, é a afetiva. Com a chegada da pílula anticoncepcional, o sexo deixou de ser visto apenas como meio de reprodução e ganhou a possibilidade de ter como foco, também para a mulher, unicamente o prazer. Esta mudança, somada a todo o contexto histórico, tornou comum entre as mulheres o sexo fora dos relacionamentos, casual. Desta forma, as atitudes de ambos os sexos diante do assunto se tornaram muito semelhantes. É comum escutar homens comentando que hoje as mulheres tomam a iniciativa da mesma forma que eles, sendo consideradas, por vezes, vulgares (Goldenberg & Toscano, 1992).
Diante de todas estas mudanças, as prioridades da mulher também se alteraram. Se há algumas décadas o esperado era casamento e filhos em torno dos vinte anos de idade, hoje, estes planos foram adiados. Passaram a ser mais urgentes a ascensão profissional, a aquisição de bens e a estabilidade econômica e podemos ver cada vez mais a incidência de gravidez tardia ou até mesmo o número crescente de casais que não desejam ter filhos, por acreditar que teriam que abrir mão de seus desejos e vontades, pelos desejos e vontades dos filhos.
CALIL, L. E. S. Direito do trabalho da mulher: A questão da igualdade jurídica ante a desigualdade fática. São Paulo: LTR, 2007.
GOLDENBERG, M. & TOSCANO, M. A Revolução das Mulheres. Rio de Janeiro: Revan, 1992.
PLATÃO. O banquete. Lisboa: Edições 70, 1991.

Psicólogos em S. Paulo