quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Minha história romântica


Henriqueta Lisboa


Minha história romântica

No jardim do meu sonho, outr’ora, quando entrava
na vida, ao resplendor de um sol de cereja,
tive a promessa de uma flor que despontava,
na ilusão de quem vai possuir o que deseja.


E, ardente, do calor da minha alma que é lava
fulgida, à luz do olhar que nunca mais se veja,
tendo por humildade o pranto que eu chorava,
a flor se abriu, sorrindo, à sombra de uma igreja.


Uma tarde, porém, sinto que me envenena...
E na volúpia de augmentar a própria pena,
espedaço-a nas mãos! Ó Dor, que me confortas!


Hoje, a sós no jardim, às horas lardas, quedo,
vendo entre um gozo estranho e uma impressão de medo
boiarem na piscina umas pétalas mortas.

- Henriqueta Lisboa, in "Fogo fátuo", 1925.