quinta-feira, 8 de outubro de 2015

BIOGRAFIA DE CAMILO CASTELO BRANCO ( II Parte)


Porto Século XIX
Ilustração da Cidade do Porto no século XIX.
Em 1949 volta à cidade do Porto para tentar o curso de Direito. Novamente no Porto segue uma nova uma vida de boémia repleta de paixões, repartindo o seu tempo entre os cafés e os salões burgueses e dedicando-se entretanto ao jornalismo, que o levaria a abandonar o curso de direito.
Em 1850, toma parte na polémica entre Alexandre Herculano e o clero. Alexandre Herculano, liberal convicto e anticlerical escrevera um folheto denominado “A Questão, Eu e o clero”, como forma de denúncia e critica àquela classe. Camilo decide agir em defesa da igreja e escreve o folheto “O Clero e o Sr. Alexandre Herculano” como resposta, no qual ofende o carater de Herculano. A relação entre dois autores só seria retomada, anos mais tarde, de Camilo mudar a sua posição em relação ao clero.
Nesse mesmo ano apaixona-se perdidamente por Ana Augusta Vieira Plácido, uma jovem que está noiva de outro homem: Manuel Pinheiro Alves, um “negociante brasileiro” (na verdade um português que tinha negócios no Brasil) que irá servir de inspiração como personagem em algumas das suas novelas, muitas vezes com caráter depreciativo. Quando Ana Plácido se casa com aquele, Camilo tem uma crise espiritual e ingressa no seminário do Porto em 1851, pretendendo seguir a vida religiosa. Mas o seu tempo no seminário fá-lo ficar desiludido com a vida do clero e isto acabaria por influencia-lo em muitas das suas obras nas quais se denota uma certa critica à vida religiosa. O seu tempo como seminarista dura pouco mais de um ano.
Camilo na Prisão
Representação de Camilo na Prisão da Relação do Porto onde foi preso em 1859
Saindo do Seminário e pondo de lado os paradigmas religioso Camilo decide então seduzir e conquistar Ana Plácido, conseguindo-o, e tendo com esta uma relação adúltera.
Em 1859, depois a alguns anos de amores escondidos do marido desta, decidem fugir os dois. Depois de algum tempo em fuga, são capturados e julgados pelas autoridades. Camilo é acusado do crime de rapto e Ana Plácido do crime de adultério (crime punível na altura). Naquela época, o caso emocionou a opinião pública, pelo seu conteúdo tipicamente romântico de amor contrariado, à revelia das convenções e imposições sociais. Apesar disso, acabaram ambos por ser enviados para a Cadeia da Relação, no Porto, onde o pai de Camilo também estivera encarcerado.
Na prisão Camilo conheceu e fez amizade com o famoso salteador Zé do Telhado, que roubava burgueses com uma quadrilha de ladrões e que participara em várias revoltas políticas. Com base nesta experiência e da amizade que fizera acabaria por escrever “Memórias do Cárcere”.
Ao fim de um ano de prisão, Camilo e Ana Plácido são absolvidos dos crimes que tinham sido condenados (curiosamente pelo Juiz José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, pai do então muito pequeno, Eça de Queirós), por não existirem provas de adultério consomado e porque a fuga foi feita com intenção das duas partes, não havendo por isso rapto. Camilo e Ana Plácido são então libertados e passam a viver juntos em Lisboa, cidade para a qual se mudam. Camilo tinha então 38 anos de idade.

Maturidade Literária

Estátua de Camilo
Estátua de Camilo e da sua Musa, Ana Plácido, na cidade do Porto
A vida conjugal com Ana Plácido (embora não fossem casados) poderia ter sido mais feliz se não fossem os problemas financeiros. A um filho já existente (que não se sabe se seria de Camilo ou do ex-marido) nascem mais dois.
Com uma família tão numerosa para sustentar, Camilo começa então a escrever a um ritmo alucinante, sendo efetivamente o único escritor de renome da sua geração a ter que escrever para poder sobreviver, pois todos os escritores conceituados da altura provinham de famílias com posses. Isto explica como, em quase 40 anos, entre 1851 e 1890, Camilo tenha conseguido escrever mais de duzentas e sessenta obras, com a média superior a 6 livros por ano, sendo efetivamente o escritor português mais publicado de sempre. Além dos vários romances que lhe deram popularidade, deixou um legado enorme de textos inéditos, comédias, folhetins, poesias, ensaios, prefácios, traduções e cartas – tudo com assinatura própria ou com alguns menos conhecidos pseudónimos (como por exemplo: Manoel Coco, Saragoçano, A.E.I.O.U.Y, Árqui-Zero e Anastácio das Lombrigas) quando escrevia textos polémicos, satíricos ou humorísticos que não queria ver associados ao seu nome.
Em 1863 publica o seu romance mais famoso: “Amor de Perdição” que lhe consolida a reputação como escritor e lhe traz fama a nível nacional. É também nesse ano que morre o ex-marido de Ana Plácido e, tendo o primeiro filho de Ana Plácido, recebido, do suposto pai, a sua casa como herança, muda-se o casal e a sua prole para São Miguel de Seide no Concelho de Vila Nova de Famalicão.
Postal de Póvo de Varzim
Postal restaurado de Póvoa de Varzim nos finas do século XIX. Largo de São Roque e Rua do Pelorinho.
Entre 1873 e 1890, Camilo deslocou-se regularmente à vizinha cidade balnear de Póvoa de Varzim, para se reunir com personalidades de notoriedade intelectual e social da época com quem travava amizade, como o pai de Eça de Queirós, (José Maria de Almeida Teixeira de Queirós) magistrado e Par do Reino que o livrara da cadeia; o poeta e dramaturgo Francisco Gomes de Amorim, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, António Feliciano de Castilho, entre outros.
Outra razão que levava Camilo a deslocar-se com frequência a Póvoa de Varzim eram os salões de jogos e as diversões noturnas que que a cidade oferecia. Conta-se que Camilo nessas idas a Póvoa de Varzim metera-se com uma bailarina espanhola e que tendo gasto, com a manutenção da diva, mais do que permitiam as suas posses, acabou por recorrer ao jogo na esperança de multiplicar o pouco que tinha. Acabou por perder tudo e contrair uma dívida de jogo, que então se chamava uma dívida de honra
Foi numa dessas noites de diversão a Póvoa de Varzim que Camilo viu morrer aos 19 anos, o seu filho mais velho e predileto, Manuel Plácido Pinheiro Alves, por razões desconhecidas.
Entretanto a sua fama como escritor aumentava. Por volta dos anos de 1880 não havia escritor mais famoso e celebrado em Portugal do que Camilo Castelo Branco, tendo inclusive a Academia Real das Ciências de Lisboa chegado a fazer-lhe uma homenagem.
Em 1885 o rei D. Luís I de Portugal, decide conceder-lhe o título de 1.º Visconde de Correia Botelho. Nesse mesmo ano casa-se finalmente com

Velhice

Um retrato de Camilo Castelo Branc
Um retrato de Camilo Castelo Branco pelo pintor João Duarte Freitas
Desde 1865 Camilo começou a sofrer de graves problemas visuais, sintomas causados pelo avanço da sífilis (doença venérea), para além de outros problemas neurológicos lhe provocavam uma progressiva cegueira, aflitivamente crescente, que lhe ia atrofiando o nervo ótico, impedindo-o de ler e de trabalhar capazmente. Esta incapacidade visual, aliada às dificuldades financeiras e à sua perceção de que tinha uns filhos incapazes (considera o mais velho um desatinado e o mais novo um louco) davam-lhe enormes preocupações, acentuavam-lhe o mau feitio e faziam-no mergulhar numa profunda depressão.
Ao longo dos anos, Camilo consultou os melhores especialistas em busca de uma cura para a sua vista, mas em vão. A 21 de Maio de 1890, dita esta carta ao então famoso oftalmologista aveirense, Dr. Edmundo de Magalhães Machado:
Illmo. e Exmo. 
Sr., Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país durante 40 anos de trabalho. Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego. Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas. Há poucas horas ouvi ler no Comércio do Porto o nome de V. Exa. Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança. Poderá V. Exa. salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira, iria procurá-lo. Não posso. Mas poderá V. Exa. dizer-me o que devo esperar desta irrupção sanguínea nuns olhos em que não havia até há pouco uma gota de sangue? 
Digne-se V. Exa. perdoar à infelicidade estas perguntas feitas tão sem cerimónia.
A 1 de Junho desse ano, o Dr. Magalhães Machado visita o escritor em Seide. Depois de lhe examinar os olhos condenados, o médico com alguma diplomacia, recomenda-lhe o descanso numas termas e depois, mais tarde, talvez se poderia falar num eventual tratamento. Quando Ana Plácido acompanhava o médico até à porta, eram três horas e um quarto da tarde, sentado na sua cadeira de balanço, desenganado e completamente desalentado, Camilo Castelo Branco disparou um tiro de revólver na têmpora direita para se suicidar.
Mesmo assim, sobreviveu em coma agonizante até às cinco da tarde. A 3 de Junho, às seis da tarde, o seu cadáver chegava de comboio ao Porto e no dia seguinte, conforme a seu pedido, foi sepultado perpetuamente no jazigo de um amigo, João António de Freitas Fortuna, no cemitério da Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa. Tinha 65 anos.