segunda-feira, 5 de outubro de 2015

DESPEDIDA



MÃEZINHA QUERIDA, BOA VIAGEM


Está tão bonita, ela, agora muito tranquila e quase sempre a dormir... e, nas pouquíssimas vezes em que abre os olhos, faz uns sorrisos tão bonitos, mas tão bonitos, tão calmos...

Quando entrou nos cuidados intensivos do hospital Egas Moniz teve mesmo de fazer uma cirurgia grande e ficou a dieta zero imenso tempo, e nesse período era evidente que estava a sofrer. Chamava, em desespero, pela minha avó, que morreu quando eu tinha dez anos. Implorava-nos que a tirássemos dali. Gritava que queria morrer. Uma vez chegou a sussurrar-me "que vergonha, morrer assim". E aqueles imbecis quase nunca lhe davam morfina!

Agora perdeu de vez a consciência, mas está tão tranquila que é bom vê-la partir de mansinho.

Querida, querida Mãe. Os sorrisos de total plenitude e felicidade quando chegava a casa do trabalho e nos encontrava sentadinhas a brincar no chão do quarto, a minha primeira memória de infância.

E todo o brio que investiu nas questões da Saúde Escolar enquanto educava quatro filhas, era a esposa do Prof. e supervisionava a casa. Hei-de homenageá-la como ela merece, mas ainda não tive a concentração que nisso exige.

É bom saber que não estou sozinha nesta despedida. Bem hajam.


Devaneios a Oriente, Clara Pinto Correia