quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Crítica: “O Lobo Atrás da Porta” – um sequestro dentro de uma novela







Crítica: “O Lobo Atrás da Porta” – um sequestro dentro de uma novela


Um filme brasileiro que parece querer brincar às coisas sérias, mas não deixa de ser negro .

A aclamada obra do realizador brasileiro Fernando Coimbra, vencedora dos Cinema Brazil Grand Prize, convence-nos logo no início. Depois continua a tentar convencer-nos, mas, por alguma razão, algo nos deixa de pé atrás. E à medida que o resto da história progride, torna-se cada vez mais difícil envolvermo-nos nela. “O Lobo Atrás da Porta”, em estreia esta quinta-feira em Portugal, começa por ser sério, interessante e aflitivo, mas rapidamente se dispersa, trocando a tensão pelo desejo, o suspense pela intriga e uma história arrepiante por outra tantas vezes já contada.

“Onde está a rapariga?” É a primeira frase que se ouve. “Veio a sua vizinha, uma senhora chamada Sheila, buscá-la”. “Não conheço nenhuma Sheila” – e está lançado o jogo, bem como o pânico.

A vida de Sylvia (Fabiula Nascimento) e a do seu marido Bernardo (Milhem Cortaz) está prestes a dar uma grande volta. O problema é que este é o ponto de partida, e só depois do primeiro terço do filme é que percebemos que a volta já foi dada. O aparente sequestro da filha é apenas uma consequência dessa “volta”. O segundo problema é que o realizador começa por nos vender uma coisa e depois oferece outra, e o que mais interessa do filme acaba por ser posto de parte.

O maior problema é mesmo o facto de o sequestro parecer ser um veículo para contar uma telenovela.

A filha deste casal foi levada por alguém, e, como tal, tanto o pai como a mãe, ao apresentarem queixa, têm de se submeter a um inquérito policial. Está tudo a correr dentro do previsível – “qual foi a última vez que viu a sua filha? Há alguém que vos queira mal?” –, mas cedo as perguntas começam a virar para campos que o casal não esperava: “Tem algum relacionamento extraconjugal?” “Mas o que é que isso interessa?” Interessa, e muito, porque Rosa (Leandra Leal), amante de Bernardo, além de ser depressiva, presenta sintomas de psicopatia.

A aflição que sentimos no início vai-se dissipando enquanto os interrogados pela polícia vão contando a sua versão dos acontecimentos, ou melhor, enquanto vão contando todas as interações entre personagens. Ou seja, temos acesso ao primeiro encontro e ao crescimento da relação entre Bernardo e Rosa, bem como ao apodrecimento do seu casamento com Sylvia. “Mas o que é que isso tem que ver com a premissa inicial?”, poderá estar a questionar-se, e com razão: absolutamente nada, e isso é o que faz com que “O Lobo Atrás da Porta” falhe.

O ambiente está bem conseguido, ainda que muitos diálogos, e talvez até algumas cenas inteiras, pareçam forçados. Mas o maior problema é mesmo o facto de o sequestro parecer ser um veículo para contar uma telenovela. O facto de o desejo dos pais, e consequente infidelidade, resultar no sequestro da filha é uma ideia curiosa e até com potencialidade artística. Mas Fernando Coimbra nunca consegue interligar os dois cenários, fazendo com que um se torne uma desculpa para o outro. Essa quebra nota-se, sentimo-nos obrigados a assistir ao relacionamento amoroso para chegar à solução do caso – e isso torna-se cansativo.



texto
Daniel Neves
http://www.nit.pt/