sábado, 17 de outubro de 2015

ÁRVORE CINTILANTE

Árvore Cintilante

Uma palavra
pela qual te perdi com prazer:
a palavra
Jamais.

Era,
e por vezes também tu o sabias,
era
uma liberdade.
Nadávamos.

Ainda te lembras que eu cantava?
Com a árvore cintilante cantava, com o leme.
Nadávamos.

Ainda te lembras que nadavas?
Aberta estavas ante mim,
estavas ante mim, estavas
ante mim ante
minha ante-
cipada alma.
Eu nadava por nós dois. Não nadava.
Nadava a árvore cintilante.


Ela nadava? Havia
um charco em volta. Era o lago infinito.
Negro e infinito, assim suspenso,
assim suspenso, mundo abaixo.

Ainda te lembras que eu cantava?

Esta —
oh, esta deriva.

Jamais. Mundo abaixo. Eu não cantava. Aberta
estavas ante mim ante
a alma errante.
Paul Celan