terça-feira, 20 de outubro de 2015

APRENDER COM A FRAGILIDADE





Podemos simplesmente passar a vida a fugir da fragilidade, a dos outros e a nossa, como se foge de alguém que nos prende só para nos fazer perder tempo ou desviar-nos do nosso destino. No fundo, consideramos a fragilidade uma presença ilegítima que não tem muito a dizer-nos; uma intrusa que é necessário desconsiderar tal o embaraço que provoca; uma experiência inconsistente, dilemática; um deserto que temos de atravessar sem fazer grandes perguntas; uma insegurança devoradora, um desconforto, um gosto inconfessável de fracasso que parece contaminar tudo; um estado emocional intermitente e precário, tão diferente da assertividade que disparamos com a certeza de nunca falhar o alvo; uma turbulência estranha que, como inexplicavelmente se abateu, também inexplicavelmente há de partir. Assim nos força a crer esta sociedade da eficácia que trata os “estados de alma” com a hostilidade devida aos “estados canalha”. (...)

Expresso,José Tolentino Mendonça