sábado, 24 de outubro de 2015

ALBERTO PIMENTA NA JAULA DOS CHIMPANZÉS

Performatus,Juliana Pinho




Em 31 de Julho de 1977, Alberto Pimenta colocou-se numa jaula do Palácio dos Chimpanzés do Jardim Zoológico da cidade de Lisboa em sua concepção performática

A primeira vez que ouvi falar de Alberto Pimenta, corria o ano de 1995. Foi numa aula de História da Arte, a propósito da escrita automática. A escrita automática, para quem não sabe, é aquilo que todos fazemos quando estamos ao telefone: é o rabiscar do que nos dizem do outro lado, ou daquilo que nos vem à cabeça, de forma involuntária. Um ano depois, o autor escreveu “A sombra do frio na parede”, livro que comprei anos mais tarde, quando achava que ser inteligente era comprar livros de poesia surrealista e arrotar dois ou três nomes estrangeiros. Nunca mais peguei no livro, até hoje, até ao dia em que tive de escrever acerca de Alberto Pimenta. Ora, em Portugal isto é quase um sacrilégio: os arautos da crítica não permitem que os críticos-wanna-be tenham nascido depois do 25 de Abril. Damn! Cá, a crítica quer-se pré-menstrual; nem menina nem mulher, de bem com deus e com o diabo, com sol na eira e chuva no nabal; ou seja, a crítica quer-se neutra como a Suíça, mas sem chocolates, que como dizia Pessoa, são o que no mundo contém mais metafísica.

Imbuída do espírito “alberto-pimentiano”, relembro uma ação de 1977 (ainda eu não era projeto de gente), que o autor levou a cabo. No dia 31 de Julho desse ano, Alberto Pimenta fechou-se numa jaula do jardim zoológico de Lisboa, tendo os símios como vizinhos (Adeus Criacionismo, olá Evolucionismo) e ali esteve exposto, das 16 às 18h, hora boa que atrai muita família a dar o seu passeio domingueiro. Para o identificar, tinha a tabuleta “Homo-sapiens”, só para informação adicional e que serviria de título do livro onde relata esta experiência em que contou com a colaboração de Tabucchi e Alexandre O’Neill, entre outros. Na altura, os comentários que Alberto Pimenta registou seriam muito parecidos com os que registaria hoje, já que nesta sociedade em que a criatividade parece ser obrigatoriamente condição sine qua non o indivíduo não pertence a um conjunto de círculos, as palavras de ordem face à surpresa parecem ser curiosamente as mesmas do século passado. Nesse mesmo ano, Alberto Pimenta escreveu o “Discurso sobre o filho-da-puta” (assim mesmo com hífen entre as palavras, para arrasar com o novo acordo ortográfico que eu hoje estou com a “macaca”, para dar continuidade ao tema). Ora, este discurso deu a Portugal uma frase que ainda hoje – ou principalmente hoje – o caracteriza. Cá “o sonho de qualquer pequeno filho-da-puta é ser um grande filho-da-puta”; ou seja, a inveja com que Camões acabava “Os Lusíadas” e com que temos sido brindados pela imprensa angolana. “Tchin-Tchin” para vocês também!

De que forma isso nos leva a Alberto Pimenta e à performance desse ido ano de 77? Pimenta saiu ao fim de duas horas, mas continuamos a agir como se alguém ainda estivesse lá: condescendemos com sobranceria os que ousaram inovar. Assim como condescendemos quando vimos que Beuys falou com a lebre. O que quero dizer é que a arte também é feita dos seus meios, dos seus materiais, do marketing e, acima de tudo, das quatro paredes que a recebem. Dou um exemplo: em 2011, o Museu do Quai Branly, em Paris, inaugurou uma exposição denominada “Zoológico Humano: Uma Invenção do Selvagem”, onde mostrava a forma como o homem “estrangeiro” ou “descoberto” (não é que ele estivesse escondido, but nevermind…), foi vista pelo homem descobridor. Diz-se que quando o branco viu o negro pensou que estava a ver um macaco e que quando o negro viu o branco pensava que estava a ver um fantasma. De lá para cá, o ocidental ganhou a dianteira, mostrando o produto da sua descoberta como uma aberração, em feiras, exposições coloniais, universais e circos. Este produto é tão-somente o resultado da busca pelo “elo perdido” na evolução e, penso, era para ele que Alberto Pimenta alertava nesta performance. É ele o elo perdido entre o macaco na jaula ao lado e o homem que o observa. O autor não apresentou, ao contrário das atrações do passado, nenhuma deficiência física que tornasse a sua presença mais apetecível. Cremos até que se tal acontecesse, vozes de indignação se fariam ouvir. Pelo contrário, ele mostrou-se como era, mas, mesmo assim, causou estranheza, mostrando que o que separa a arte da depravação, a aceitação entusiástica e a condescendência podem ser meia-dúzia de barras de metal. O metal, o metal e a mente.

© 2013 eRevista Performatus e o autor
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