sexta-feira, 11 de setembro de 2015


Um Amor


Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,

puxaste-me para os teus olhos

transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,

ainda apanhámos o crepúsculo.

As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar

diferente inundava a cidade. Sentei-me

nos degraus do cais, em silêncio.

Lembro-me do som dos teus passos,

uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,

e a tua figura luminosa atravessando a praça

até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,

o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,

continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha

essa doente sensação que

me deixaste como amada

recordação.

Nuno Júdice, in "A Partilha dos Mitos"