quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Troca de cartas




Cartas Trocadas para o Marido e para o Amante
Anais,

Uma terrível asneira foi feita. Enviaste a carta para o Hugo, no dia em que chegaste, e mandaste-lhe a minha. O Hugo está freneticamente a tentar entrar em contacto comigo. Mandou a Amélia aqui, que deixou debaixo da porta o bilhete que junto. Ela esteve aqui de manhã e outra vez esta noite. Pensei de manhã que era o próprio Hugo e que ele tinha vindo para me "apanhar"... Por isso, não abri a porta.

Já que eu tinha recebido a carta dele na noite anterior (a tua carta para ele), tive um pressentimento de que as cartas tinham sido postas nos envelopes errados e fiquei apreensivo. Esta noite enviei-lhe a sua carta para o número 18 da Ave. de Versailles, sem dar a minha morada. Não posso dizer nesta carta se chegarei a receber a que me era devida. Espero que sim. Suponho que ele saiba tudo agora. Mas estou a evitá-lo, porque não quero admitir nem negar. Ele deve estar furioso, mas, ao mesmo tempo, num estado terrível. Eu próprio estou exausto de apreensão. Trouxe o Fred para ficar aqui comigo, porque até o Hugo partir vou estar em pulgas. Sei que, se ele me matasse, não seria sem razão.

Felizmente estás fora de alcance... Por agora. Não duvido de que te tenha já telegrafado. Devo provavelmente fazê-lo eu próprio durante o fim-de-semana... Quando souber algo mais definitivo. Especialmente quando receber a tua carta. Não faças nada à pressa. Fica aí e, se te sentires ameaçada, não dês a tua morada. Deixa-o lidar com o Rank.
Percebo muito bem como tudo aconteceu e, no fundo, sinto-me realmente contente. Agora alguma coisa drástica terá de acontecer. Um divórcio, mais certamente. Cristo, espero bem! Isto não podia continuar para sempre.

De momento estou numa encruzilhada. Suponho que ele vai anular todos os cheques. Vou tentar levantar um deles amanhã através de terceiros. Escreverei outra vez assim que receber a tua carta, que espero que ele me envie. Enviei a sua carta directamente para ele, não para a Amélia, claro. A Amélia esteve bem. Salvou-me a vida outra vez, pelos vistos.
Devido ao facto de que tenho de te telegrafar alc Bryant alc Powers, não posso dizer muito. Provavelmente pedir-te-ei a tua morada e o endereço para te telegrafar no segundo telegrama.

Isto é indubitavelmente o Escândalo que o teu mágico previu. Se ele previu outras coisas que escondeste de mim, é melhor pensares nisso. Que pena não me teres dito que foste sozinha. Agora imagino saber porquê, mas senti-me mal à mesma. Mas que interessa tudo isso agora? Mantém a calma e faz o que achares melhor. Mas mantém-me verdadeiramente ao corrente do que o Hugo está a fazer... Quando parte, etc. É importante. Podes imaginar o meu presente estado de espírito.
Há uma coisa de que tens de lembrar-te. És uma mulher livre... Podes fazer o que quiseres. Eu não tentaria remexer muito. A mim parece-me que pode tudo correr pelo melhor. No fundo, tu querias isto. Bem, aqui o tens!

Posso ter de deixar a cidade até que o Hugo parta. Isso depende do seu comportamento. Por agora fico aqui, fechado a sete chaves.
Que estranha situação! Esta troca de cartas... Comparações... Por sorte, outra vez, tu escreveste-lhe uma bela carta. Imagino como será a minha. Recebi uma anterior, um curto bilhete de 30 de Novembro... Cheia de trabalho, etc. Deve ter sido o primeiro. Talvez agora eu devesse ir ver o leitor de mentes. Que mulher és! Se apenas te conhecêssemos 24 horas por dia! Mesmo assim, acredito em ti. É só isso! Todos acreditamos. Não, mas a sério... Espero que isto signifique o fim de todo o jogo duplo, que nós agarremos a hipótese e embarquemos juntos, absolutamente um com o outro e só para o outro.

Acreditas absolutamente em mim? Sabes que só te quero a ti? Acredita nisso. Não posso dizer muito mais agora... Estou exausto de tanto nervosismo. Espero que entendas. Isto é um golpe. Um verdadeiro!
Envia cartas ou telegramas para aqui até nova ordem, porque, mesmo que eu parta por uns dias, o Fred vigiará o correio para mim. Tem calma. Estás a 3000 milhas de distância. Mas não te encontres sozinha com o Hugo numa primeira vez... Se tiveres de te encontrar com ele. Tem cuidado!

Henry Miller, in "Carta de Henry Miller a Anais Nin, 1934"