quarta-feira, 9 de setembro de 2015

... Sardinha! sardinha!






Excerto da obra de Raul Brandão, Os Pescadores, 1923

"O que se arranca ao mar só em sardinha é prodigioso. Todas as manhãs os vapores correm as armações valencianas e trazem os barcos carregados para a fábrica. Todas as noites infatigavelmente o cerco americano apanha sardinha; todo o dia infatigavelmente a arte da xávega no Algarve, as netas e outros aparelhos por essa costa fora, puxam a rede para a terra. Pescam nas nossas águas os galeões espanhóis, os navios ingleses e franceses; e as criminosas traineiras, depois de exterminarem o peixe na costa da Galiza e na baía de Vigo, onde ele entrava em inesgotáveis cardumes, espalhando-se pelos braços da ria, matam-no a dinamite e a carboneto, de Peniche até Leixões e mais para o norte ainda. De dia, de noite, rapam-na os pescadores do fundo do mar. Juntam-se os 69 poveiros, os matosinheiros, os cagaréus, os do norte e os do sul, os algarvios, os dos grandes aparelhos aperfeiçoados e os dos aparelhos primitivos, e todos os dias alastram os areais de peixe vivo, que se vende fresco, salgado, em latas e barricas, que se consome no país ou se exporta para o estrangeiro. Em alguns pontos, como em Olhão, por exemplo, a sardinha é um jogo apaixonado. Enriquece e arruína, compra-se a prazo, e vende-se às vezes mais barato do que custa, quando o fabricante se vê obrigado a lançá-la ao mercado. Nenhum peixe dá mais dinheiro e poucos têm mais préstimo. Ocupa o terceiro lugar na escala da alimentação e está muitos furos acima do bacalhau, o fiel amigo. É aos montes que a sardinha é apanhada por essa costa para enriquecer meia dúzia de felizes. Daqui a meio século não há uma escama nas nossas águas fertilíssimas. O planalto que se estende até algumas milhas da costa, e que foi revolvido pelos vapores de arrasto, matando a criação e reduzindo à pobreza os pescadores primitivos, é agora explorado pela indústria por todos os processos e feitios. Sardinha – sardinha – sardinha... Carregada em barcos, a dorso de cavalgadura ou nos carros alentejanos de toldo e grandes rodas, acarretam-na para a fábrica. Levam-na os rapazes e as mulheres em gigos e redes para casa. Furtam-na os homens da companha que têm uma larga parte nesta matança. Só um mestre dum barco do Fialho ganhou em 1922, em percentagem, afora o ordenado e o quinhão, quinze contos de réis. É o peixe que dá mais dinheiro. Por isso a destruição é enorme e sem folga, dura o ano todo, antes da desova e depois da desova, à rede, a tiro, sem cessar e sem tréguas –uns barcos em terra, outros no mar, uns pescando-a e outros conduzindo-a, com a borda metida na água. Cheira a sardinha. Como os antigos pescadores já não chegam para esta matança, chama-se em auxílio a gente da terra – no Algarve o montanheiro, no norte o lavrador. Multiplicam-se as fábricas, procuram-se novos meios de destruição. O azeite corre como um rio: é preciso importá-lo, que não chega. O sal aumentou de preço, porque só este greiro branco permite que o peixe não se estrague. Ao sair do barco, até o peixe que se destina à conserva é logo salpicado. Organizam-se companhias a toda a pressa, e de norte a sul a exploração redobra. É uma febre. São montanhas de prata que o mar produz – tão grandes e tão inesgotáveis que ainda hoje do alto da Arrábida sucede ver-se todo o mar reluzir com o cardume. Tenho a impressão de que o mar é compacto, só sardinha – sardinha – e sardinha. Estou farto. "(2) .

 (2) Todos os pescadores de norte a sul se queixam de que o peixe falha. Queixam-se de Caminha a Aveiro, queixam-se os da Nazaré, os de Sesimbra e os de Olhão, que emigram para a América. Porquê? Porque, já o disse, nós só temos um sistema bem organizado – o da destruição. Primeiro os vapores de arrasto revolveram o planalto matando a criação e destruindo os pastos. Vieram logo a seguir as criminosas traineiras, que matam a dinamite, e por último os barcos estrangeiros, que empregam agora o carboneto. Se juntarmos a isto a falta de método e de fiscalização efectiva, os excessos cometidos por todos e as leis e os regulamentos que não se cumprem, é fácil de ver porque falta o peixe, e de prever também que dentro de cinquenta anos não haverá uma escama nas fertilíssimas águas portuguesas. Fartem-se enquanto é tempo. Que havia a fazer? – Proteger eficazmente o planalto, que em geral tem uma profundidade pequena e poucas milhas de largura, e o fundão, a beirinha, como lhe chamam os pescadores. – Regulamentos severos e executados a rigor. – Proibir ás traineiras e aos cercos a pesca da sardinha durante a desova. Hão-de ser obrigados a fazê-lo dentro em breve. – Vapores de arrasto poucos, ainda que hoje são menos nocivos, porque vão pescar para muito longe. Júlio de Vilhena chegou à conclusão, no seu relatório, de que não se deviam permitir mais de quatro vapores em Lisboa e três no Porto..."