terça-feira, 22 de setembro de 2015

REVISTAS COR-DE-ROSA

Há dias parámos numa bomba de gasolina, e, como tantas vezes, lá levei a revista cor-de-rosa do dia, que a minha mulher devora, especialmente no Verão. A capa era, claro, bombástica. Já não me lembro do tema, nem de qual era a revista, mas sei que pelo caminho ela ia a ler em voz alta algumas passagens, que desmentiam por completo "a bomba" que estava na capa. Infelizmente, esta é a regra, e não a excepção. E a dúvida que tenho hoje é a mesma que tinha há vários anos, quando estava na chefia de um jornal popular e me envolvia em discussões de horas com outros colegas, editores, directores, em que debatíamos cada palavra da capa, para que se conseguisse um equilíbrio entre uma frase "sexy", com apelo de compra, mas ao mesmo tempo totalmente fiel ao que vinha no texto: afinal, o que é que os leitores de noticiário mais cor-de-rosa querem? Querem a verdade? Na minha opinião, até podem querer, mas isso não é o mais importante. Para mim, querem assunto de conversa, e isso sim, é o que os faz comprar as revistas.

A minha dúvida inicial tem lógica, afinal, semana após semana, duas, três revistas fazem capas enganadoras e, mesmo assim, não baixam de vendas. A minha pergunta era sempre a mesma: mas o que é que leva alguém a comprar uma revista todas as semanas, mesmo sabendo que as notícias na capa não são verdade? A resposta é a que deixei: querem assunto para falar com outras pessoas, querem saber o que se diz da vida dos outros, mesmo que isso que se diga não seja verdade, ou totalmente verdade.

Sempre me interessou a discussão das notícias falsas publicadas na imprensa. Este foi, aliás, o tema da minha tese final de licenciatura, em que tentei perceber as diversas razões que levam a que um órgão de comunicação publique uma história que não é verdade. Analisei os cinco diários generalistas existentes na altura, entrevistei vários jornalistas e directores de jornais, tentei analisar e dar exemplos dos casos mais polémicos relacionados com notícias falsas, e o resultado final foi interessante. Excluí as revistas cor-de-rosa porque, como disse, acredito que as razões para "enganar" o leitor são diferentes. E não são, ao contrário do que a maioria das pessoas gosta de dizer, "só para vender revistas". Como é óbvio, todos os directores de jornais e revistas fazem as capas que, acreditam, vão vender mais. Um director que, hoje em dia, se desligue por completo do "apelo de compra" das capas está condenado ou vive noutro mundo. Todos os jornais e revistas querem vender, sejam eles de referência ou cor-de-rosa, porque se não venderem fecham as portas. Agora, para vender não tem de se recorrer a notícias falsas, a especulações ou a formulações de capa enganadoras. Mas isto, uma vez mais, não é válido para as revistas cor-de-rosa, porque para quem as lê o mais importante é ser entretido. E a ficção também serve para entreter.

Blog O Arrumadinho