segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Retrato do Povo de Lisboa






É da torre mais alta do meu pranto

que eu canto este meu sangue este meu povo.

Dessa torre maior em que apenas sou grande

por me cantar de novo.


Cantar como quem despe a ganga da tristeza

e põe a nu a espádua da saudade

chama que nasce e cresce e morre acesa

em plena liberdade.


É da voz do meu povo uma criança

seminua nas docas de Lisboa

que eu ganho a minha voz

caldo verde sem esperança

laranja de humildade

amarga lança

até que a voz me doa.


Mas nunca se dói só quem a cantar magoa

dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria

apunhalada na garganta.

Dói-me o sangue vencido a nódoa negra

punhada no meu canto.


Ary dos Santos, in 'Fotosgrafias'