terça-feira, 22 de setembro de 2015

Poema fabulado

 



O dedilhado na tua barriga fingiu-se um homem:
o dedo médio fez-se perna esquerda
e o indicador fez-se perna direita.
E lá foram eles, os dedos, fazendo-se pernas,
deixando impressões, como se fossem pegadas.
Circundaram o teu umbigo, como se ele fosse uma toca,
e um deles abeirou-se, como se quisesse lá ir espreitar.
Ao rires e tremulares, correram, como se de um sismo fugissem,
e subiram, em dedilhado rápido, tuas costelas acima,
até pararem seguros, no alto de um monte
feito de cachecol enrolado e camisola dobrada por baixo.
Mas os dedos que fingiram ser homem tremeram de novo:
o monte que julgaram firme era movediço, afinal – pensaram
quando, por dentro da camisola,
outros dedos se haviam deitado (estranhamente, cinco!),
mexendo-se, como pernas num solo mais firme,
mas que era como um dos teus seios,
porque batucava,
como se um coração ele albergasse, e este latejasse
e os convidasse a brincar com outros lugares teus.

Sérgio Lizardo
www.facebook.com/sergio.lizardo.escritor