segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O espanador
















O espanador

Darlan M. Cunha


Distraído, passou o espanador sobre outra camada de livros na qual estava um livro de nome Sonhos, e outro de nome O Homem e Seus Símbolos, e outro de nome História Universal da Infâmia, e ainda outro cujo título é Enterrem Meu Coração na Curva do Rio, e quase perdeu fôlego quando sopesou o olhar nos títulos Kama Sutra, História da Feiúra, Um Copo de Cólera e Viagem a Andara; e então ele parou, maravilhado de que tão belos nomes estivessem naquela estante ou prateleira, naquela casa na qual passara tanta tempo, e que nomes tão caudalosamente doces e escandalosamente prometedores como aqueles ali estivessem a meio palmo do seu conturbado nariz e de suas fatigadas retinas; que ali estivessem entre o olor do café e o timbre da cachaça com maracujá que já estava bebericando, maravilhando-se entre o suor da cana e gotas de saudade... mas saudade de quê, se não vivera, se não vivia como se vive nos livros, por exemplo? Assim como o índio de um certo livro, assim como Uirá, melhor dizendo, diferente de Uirá que saíra à procura de Deus, largou o espanador e saiu à procura da vida, e não em busca de tempo perdido, mas de espaço a conquistar. Esquecendo a janela aberta, por ela o vento penetra, ladrões e ladras e impostos à parte.